terça-feira, 21 de dezembro de 2010


A Feracidade (1,30 x 1,70m)


Há uma fera dormente
Que brinca a nado nas minhas geleiras
Se enrosca no náilon dos meus pêlos
Se espreme nas minhas nádegas
Faz cócegas nas minhas narinas
E navega nos meus seios.
Há um nó forte entre nós,
Ativando nossos átomos,
Numa atração atômica
Entre véus atribulados
No auge da criação.
Há  uma fera em mim que ainda luta,
Baila na tempestade,
Abraça a mediocridade
Para banhar-se no bálsamo
Junto aos bandoleiros
Numa pulsação  em ritmo cigano
Das incertezas viajantes.
Há uma fera que puxa e repuxa
Meus pensamentos fora do que sou
Longe da onde vou e estou,
Arrancam eles da minha casca
Nota por nota, cor por cor,
Página por página,
Me rasgando e desfolhando.
A Fera vira  um arcanjo
Abrindo as cortinas do céu
Para meu corpo sentir a ardência
De astros inanimados e inatingíveis
Assolando os universos que pinto.
Pinto o suspiro, a substância  enigmática
Que não degusto mas me sustenta,
Pinto o insólido e talvez surreal
Que minha alma toma nom gole só,
Pinto o sonho, a minha fera,
Enquanto as mãos do tempo
Jogam as cartas do meu destino.
Pinto a circulação das minhas veias
Por que tudo que meu corpo rodeia
É parado, gelado e pequeno
Para saciar as faíscas da Fera
Queimando  o trânsito agitado
Da esfinge  que me rala inteira
Esfarelando- me  em tintas sobre as telas
Desafogadas das minhas circunstâncias.

                               Alcinéia Marcucci

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