segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Mar e Eu

O sol me queimava com suas artimanhas,
E o mar parecia querer me abraçar
Com suas ondas em ascenção azulada
Entre a negritude dos meus olhos.
O barulho das ondas era abrasador,
Queria abortar os meus medos,
Insistia em tomar-me em seus braços
Banhar-me dos seus agrados amanhecidos.
Tentei ser forte, ajuízada,não ajoelhar-me aos seus encantos,
Mas o vento amigo do mar vinha acariciar os meus lábios
Escorregar em minha pele de pluma
Para eu sentir o oque da ilusão
E unir meu corpo curvilíneo nas curvas das suas ondas aguçantes.
O mar era lindo, o céu queimava em brasa,
E eu, mulher desforrada do peso do mundo,
Leve e alvo dos dilúvios, me desmanchei  em mel
Caminhando, me dilatando em seu encontro
Derrubando os contornos do castelo de areia,
Que coletava a seiva da minha sede e anseios.
Trêmula me aproximei já quase desfolhada,
O calor havia derretido a vergonha da minha face,
Olhei  novamente o mar, as pontas atrevidas dos seus dedos
Molhavam e riscavam a areia à um metro do meu corpo
Como querendo dizer-me algo fictício.
Quis recuar-me, não me ligar a seu corpo líquido,
Não me dissolver nas suas profundezas
Mas quando olhei para trás, o vento tinha apagado meus passos,
Estava sem rumo, sem direção e arduamente prosegui andando,
No quarto passo, seus dedos gelados tocaram meus pés,
Fiquei um tempo imóvel, sentindo suas carícias em meus dedos,
Foram como que me puxando a continuar a caminhada
Enquanto que a  sua salgada nervatura  abraçava minhas pernas
Minhas formas se deformaram no seu corpo transparente e colossal.
Podia sentir o toque ,enquanto sua liquidez penetrava em meu umbigo,
Dei os últimos passos dentro de seu corpo e o abraçei por inteiro
Meus braços podiam penetrá-lo e isto era instigante,
Mergulhei fundo neste amor, arrombei as arruaças
Toquei em seus órgãos, na sua orgia e orgulho de todas as maneiras cabíveis.
O mar continuava a me levar, lavava minha  alma, me trazia  leveza.
Podia ver-me em seus olhos que refletiam
A busca latente de liberdade e prazer absoluto
Com todo o seu líquido que bebia minha transpiração,
Brindando  a vida na concha do meu útero,
Esquina do romance onde brotavam as pérolas do  corpo
Entre a safira  que aquecia com seus pingentes de néon
Os gemidos ardentes da lua  batendo entre nossa desordem.
Ouvi os últimos cânticos da seresta das ondas que me alimentavam e adormeci
Abraçada junto com ele: O mar.
Quando acordei, estava em pétalas na areia,
O mar movia-se em silêncio, nem um toque, nem um chamado,
Não sei se sonhei ou o amei até a última gota de nossos desleixos desavisados.

                                                                 Alcinéia Marcucci


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