quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Susto tribalizado (1,00 x 1,20 m)


Aborto




Dois homens armados arrombaram a porta
Duas vidas longas na mão de dois canos curtos
Balas 38 ameaçam-se serem descascadas
Na boca dos meus pais, no céu do meu país
Sem pára-brisa, sem pára-choque,pára-lama
Para evitar o choque da paralisia devoradora
Parafernália que extingue os direitos iguais.
Parasitas viciados, dopados em paranóias
Abortam sonhos, cortam asas, matam no ninho
A esperança de um povo sem paradeiro
Nascido nas coxas de páginas viradas
Entre linhas tortas e seios secos de amor e paz.
São Paulo chora uma chuva sem parar!
Quem mandou crescer as margens do Tietê?
Um menino de dez anos morreu soterrado,
Mãe e filha desembrulhadas da lama
Uma garrafa pet exibe seu verde longa vida
Na cara travada das margens do rio.
O lixo entope os bueiros, nada sobra do sobrado,
Sonhos nadam alagados com os ratos,
Parlamentares nadam no dinheiro
Escalam a escala da subida do salário
Alto demais para toda esta fossa
Cheirada pelo povo atolado no imposto
De gente desaparecida, sem pé, cabeça ou barriga
Inundadas de promessas impostoras!
Imposto do automóvel, da casa, da estrada,
Imposto para comida, o sexo, o sono,
Imposto para todos os lados.
Imposto para todos nós!
Imposto para andar, amar, beber,
Imposto para encostar, nascer, morrer,
Imposto com juros, correção monetária,
Para quem quer viver neste mar de imposto
De notas quentes, notas frias,
Gelando os pés que partem sem dó
Num abismo profundo do cheque sem fundo
No cartão vermelho que a unha borrou
A cara do povo de palhaço pintou
Com o próprio imposto que o povo pagou!
Presta atenção! Liquidação da vida a prestação!
Imposto pra ser gente!
Imposto pra morrer!
Têm gente morrendo alagado, afogado,
Com ou sem pagar imposto.
Têm ladrão correndo roubar, matar,
Para não pagar imposto!
Enquanto o povo trabalha,
Colarinhos de Gravata
Arrotam dinheiro por aí.
Credo!!!

             Alcinéia Marcucci




Infelizmente o tráfico, as drogas, os assaltos, os desastres ambientais consequentes ou não das atitudes de um povo não possuem endereço fixo. Estão aí, aqui, roubando vidas, sonhos e a dignidade de um país. É vergonhoso saber que parlamentares se preocupam no reajuste de 61,8% em seus salários de R$ 16,5 mil e fecham os olhos para a precariedade que se encontra diante de seus cílios. Ontem o Jornal Nacional exibiu as condições lamentáveis do atendimento de saúde em Porto Velho, a dignidade está em baixa, e o perigo morando bem ao lado de nós, dentro das ações, medos e erros que cometemos entre alguns acertos, em nossas casas engaioladas nos muros altos com cercas elétricas. Olhos contemplam a vida por detrás das grades da janela enquanto o sol beija a face amanhecida.
Confesso que depois que os pertences, a honra e os sonhos dos meus pais foram roubados dentro de ameaças e humilhações, ando desconfiada, sinto o medo na pele e o peso das nossas leis contraditórias nas costas.
É preciso força para  seguir em frente! É preciso força para não sujar os pés! É preciso força para não desviar do caminho!É preciso força para alimentar sonhos dentro de um pesadelo! É preciso força para ver a vida do meu pai cortada ao meio! É preciso força para tirar os olhos do alagamento! É preciso Força!



Nenhum comentário:

Postar um comentário