quarta-feira, 9 de maio de 2012

Na viagem ao desconhecido mergulhei dentro de mim e penetrando na escuridão de minhas entranhas senti a Arte numa luz de queimar os olhos e chocar as  minhas "crias" alimentando-as  para que possam quebrar  os ovos retraídos por este  sossego ou espremidos  pela  velocidade do metrô. 





Olhos na Solidão ( 0,70 X 1,00 m)





Anestesiada!


Com as costas viradas para o mundo fugaz.


Anestesiada! Sem sentir o chão e seus prazeres carnais.


Anestesiada com um dragão rompendo-me num apetite voraz


Garras afiadas picotando meu corpo rápido demais.


Corpo rasgado no chão com a mala na mão.


Pra que lado será que eu vou? Perguntei aos meus disfarces.


Em minha gaiola de carne e ossos mastiguei pedaços de interrogações


Já minha alma brejeira? Nossa! Como deslanchou sem medo nos quadros, lambendo as tintas


Lavando meus olhos, extasiando meus pelos e regando minhas pintas.


Os violinos tocavam minhas notas decompostas " Ao Som dos Devaneios"


Senti ali uma alma sem rodeios desgarrar-se do corpo do pianista. Que alívio! Não estou só!


Há outros corpos flagelados por almas inquietantes! Vi a sua alma levitar por alguns instantes!


Perdida no meu mundo, com os olhos fundos na medula dos mistérios.


Embaralhada nos contrastes descobertos e incertos na avenida sonâmbula de São Paulo


Ouvi o canto da minha tribo batucando com os meus ossos e fazendo cócegas nas minhas vísceras.


Não dormi. Chorei e ri rasgando a madrugada com " As mulheres que correm com os lobos"


Entre ruídos sorrateiros externos e uivados ferozes internos a noite saltou fundo no amanhecer.


Senti o cheiro das palavras e quis entrar em alguns quadros.


Vi olhos me chamando para contar os seus segredos.


Maldito artista que parte no infinito rejuvenescendo incógnitas!


Senti nas pinturas o calor dos dedos na coloração avermelhada


A luz do sol capturada no instante e ali eu quis me aquecer.


Senti as lágrimas da obra" Saudade" bem dentro dos meus olhos


E o movimento das pessoas nas telas paralisadas.


Lá fora leito de algodão nas ruas e calçadas.


Vi árvores com as mãos arraigadas no colo da terra


Enquanto outros com as mãos nem fazem amor, apenas guerra.


Ouvi almas me chamando para fora de minha sela.


Uma mescla de gente ascendendo minhas velas.


Texturas agridoces dissolvidas nas retinas


Pimenta queimando a ponta de minha língua


Derretendo na saliva as cores da emoção: " Fascinação"


Foi espanto dos meus olhos ou dos olhos da lua que prateava a avenida luminosa na contra- mão???


Perdida me reencontrei certos momentos no deserto da multidão


Com meu olhar ladrão inocente querendo apenas capturas instantes


E sensações sem nome, daquelas que correm além dos lobos


Algo que sei que deve estar muito além dos limites desta vida...




Alcinéia Marcucci