domingo, 22 de janeiro de 2012




Mãe Terra em Mãos D'água 
(30 X 40 cm - Látex sobre Canson)

Conversa com Deus




Senhor!

Dai-me forças para voar
Dentro da minha imaginação.
Perdoai os meus passos fora da realidade
Minhas andanças na contramão  da humanidade
Meus extintos loucos que amamentam
As crias que ninguém vê
As vozes deleitadas no meu peito
Sangrando em vermelho curumim
 Toda a emoção lagrimada                                                                                                                       Na anemia de minhas telas.
Senhor!
Intercedei por mim!
Acalme esta minha alma deslocada
Que insiste em desancorar do meu corpo.
Senhor! Desperte o meu mar morto
Adormeça o dilúvio dos meus olhos
Dai-me o pão da liberdade
O  seu vinho tinto do amor
Suas mãos dentro do meu peito
Para curar minha dor.
O prato mais farto já não me alimenta
A  beleza externa já não me sustenta
Estou partida em fetas ,Senhor!
Senhor!
Dai-me  água da fonte
As cores do horizonte
Desgarre minhas raízes dos montes
Como uma árvore livre
Quero bater minhas folhas rosadas
Na brancura das nuvens Senhor!
Senhor!
Cure minha angústia!
Perdoe as dores que causo ao meu corpo sadio
Com esta minha alma inquietante.
Ela parece estar quebrando meus ossos
 Devorando meu sossego,                                                                                                                    Fervilhando meu sangue Senhor!  
Minhas lágrimas escorrem tão quentes        
Parece que até vou explodir
Na fome deste ideal!
Escutai as preces da minha alma  senhor!
Me corpo é mudo, sem voz.
É ela que grita
Entre meus poros.
Não deixai eu abortar os sonhos
No cativeiro dos ossos!
Há um feto deflorando meu peito
Oh me Deus! Sei que pode vê-lo!
Curai  a dor de minhas entranhas Senhor!!!

Amém!

Alcinéia Marcucci







sábado, 7 de janeiro de 2012

A Quebra
                                                                                               (1,00 X 1,30 m)
A banda pulsa na banda
Esquerda do meu peito
O vermelho dos meus olhos acena
Denunciando minhas infrações
Vivo num banco sem fundos
Barraco sem teto
Baralho sem cartas
Pra barrar  o meu azar.
Sou artista sem asas
Costurando as lágrimas
Deste oceano profundo
Dos meus olhos vagabundos
Com fome e com sede
De abestalhar a cólera
Que roça meus lábios
E meus canivetes caninos.
Desalinhavo meus grilos
Me atolo no desatino
Num assombro de menino
Quando descobre os mistérios 
Do colo da lua cheia
No útero da solidão.
Entre um uivado medonho
Nas amarras de concreto
Um cordão umbilical discreto
Laça todos os meus fetos
Na palma de minha mão,
Alguns vingam-se em formas
Outros desmancham-se em cores
Na mistura dos sabores
Entre a  realidade e a ilusão.


Alcinéia Marcucci




Ando distante...
me decompondo na distância
da realidade sobre meus pés.
Ando disforme, contorcida, retorcida
destacada das medidas
pregadas nas paredes fantasmas
que assombram minha distração.
Ando entreaberta
com fome, com sede,
água na boca
de morder os pretextos
mastigar os contextos
das minhas dobraduras
diversificadas.
Ando amolada
com a língua afiada
sobre minhas vontades.
Ando com onças,
me mordendo inteira
desfiam as estribeiras,
as tintas que me namoram
sobre o mel das pinceladas.
Ando coruja
um grão sobre a terra
um sopro, um beijo
e nada mais.
Ando pra frente,
de cara pra trás.
Meus olhos andam com fome,
de algo sem nome
num giro concreto
com cara de feto
subindo os degraus
derretidos do tempo
que engolem o andar
das borboletas curvas
das abelhas tortas
das caras mortas
entre algumas portas
encostadas nos mortais
perdidos no país do navegar...

Alcinéia Marcucci