ARTE PARA CACHORRO
A internet é um mundo pequeno, cabeça de agulha possível de passar até mesmo as linhas invisíveis das terras de Corumbataí: “Toca do Zorro”,terra que amo e sonho de forma apertada, afinal, Corumbataí é um Vale, uma Vila de poucas ruas para dirigir muitos sonhos.
Escrevi no desabafo logo abaixo, de forma descompromissada e à toa que pintar dói muito, por que pinto tudo aquilo que sinto, mas o que sinto não é o que as pessoas querem ver. Não condeno o meu povo e muito menos meus desejos incontroláveis. A grande maioria da população é atraída pelo belo, até mesmo na posse de nossa primeira presidente mulher, a beleza da esposa do nosso vice- presidente prevaleceu sobre o deslumbre de um fato inédito para o nosso país.
Pintar dói, pois pinto para mim mesma. Perguntam porquê continuo a pintar se pintar cria espinhos em meu corpo? No meu íntimo a resposta não quer calar, ela grita!
Poderia pintar a beleza que todos almejam contemplar como uma forma de ilusão. Poderia pintar o visível, as paisagens naturais da minha terra, seus rios, cachoeiras, arvoredos, porém não pinto-os, sou uma corumbataiense ingrata, pinto a realidade invisível que cutuca a humanidade. Pinto a força, o sonho e a dor que muitos não querem mostrar. Pinto a feiúra também, os meus defeitos de humana, que carrega a balança do bem e do mal nos ombros. Pinto de forma surreal por que do comum o inferno está cheio.
A internet ainda me salva do isolamento artístico que vivo por estas bandas da “Toca do Zorro”, usufruo de contatos artísticos geradores de amizades ocultas que no fim do túnel conseguem avistar e até sentir as fagulhas da minha Arte, isto tampa o buraco dos faróis vermelhos , e minhas tintas metem o nariz sem serem chamadas para fora da " Toca ". Ressalto que na sua sabedoria J. Costa Jr soube descrever como ninguém a melhor amiga de um homem que é a Solidão em seu texto EU TE AMO SOLIDÃO no seu blog
http://passaaregua.blogspot.com/ . A solidão consola os tapas da realidade sobre uma alma que insiste em não se entregar a arte de fácil comercialização.
Pintar dói, mas prefiro sua dor , os chutes dos dias no trasseiro do que falsas promessas que são destiladas por aí. Meu sonho hoje? Que mais pessoas possam adquirir o olhar cultural do meu cachorro! A pintura não é apenas para ser vista, é para ser sentida senão, não é Arte, e, meu Deus, como aquele cachorro Vira- lata sente minha pintura, assim, naturalmente!!! Não lhe dou nada em troca por isso, nem água, comida, ele sente a Arte gratuitamente por puro prazer! Como? Toda vez que pinto necessito encostar meu quadro no muro do jardim e dar uma certa distância para olhá-lo melhor e conseqüentemente corrigir as falhas, nisto, meu cachorro para de frente aos vãos da cerca, e olha compenetrado no fundo dos olhos que pinto nos quadros, parece que no seu íntimo canino surge um meio de conversa animal com a pintura, ele late como querendo dizer algo, dá uma pausa,fica quieto, como se a pintura falasse algo diretamente nos seus olhos baixos que lacrimejam e respondem novamente a tela com latidos altos. Observo quase imóvel o diálogo do quadro e o cachorro entre um gole de vinho.
Que pena que os cachorros não falam, apenas sentem, apenas amam!!!
Alcinéia Marcucci
Pintar dói....
A solidão me dá um tapa na cara
Com seu ramo de franqueza.
No espelho do meu quarto
Ela me encara nua de juras
Descolada de promessas
Que não colam na minha pele
De três décadas vadias.
A impureza dos meus olhos
Diz a ela quem eu sou:
Um corpo de esboço barato
Corroído pelas baratas
Que me penduram na cruz
Apertam todo meu pus
Querendo espremer esta Arte
Que parte minhas veias
Numa cova rasante
De mergulhos em Marte.
Meu corpo insaciável e ralé
Sobrevive por estas terras,
Insiste em apodrecer nos olhos
Raivosos das baratas canibais.
O espelho da solidão roliça
Teima em me roçar por dentro
Fazer nó nas minhas tripas,
Cócegas no meu útero.
Nós duas rimos das rimas das vielas
Desconcertadas pelos nossos dedos
Deletados das linhas retas
Dos traços delicados
Infiltrados no meu rosto
Camufladores desta eclosão
Das assombrações reais
Que vejo pelo espelho das vitrines.
Tudo fora das medidas , tudo morto,
Para os sentidos que me vestem,
Só meu cachorro sente o andar das baratas,
Só me cachorro escuta as baratas vazias,
Ele toca o grito das rosas no jardim
Há muito espinho entre os quadros
E pintá-los dói muito
Só meu cachorro sabe.............
Alcinéia Marcucci