quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


O Dedo Indicador

Beijo Chéri

O céu  cobria-se de panos quentes
Que se locomoviam na minha boca
Intocável, desprovida e louca
Toda despida na noite noviça
Sem pílulas para matar o vício
Sem anestesias para tirar o gosto
Da bala de pimenta que desmanchou-se
Como um tiro manchando minha pele
Do bendito sabor do Beijo Chéri.

O céu da boca era tão fundo
Ao som de sua saliva grudava-se
Uns genes trocados, colados
Matando não sei que fome
Desvirginando sensações inversas
Na boca perversa da noite
Entre as armadilhas dos braços
Que jogavam sem dó o laço
Da maldita saliva do Beijo Chéri.

Beijo este que amortecia a pele
Bebia a última gota da fonte
Pousava como uma praga
Platônica e rastejante 
Tomando a seiva do útero 
Na deslizante taça de cristal
Que carregava nos lábios finos
Assombrações do Beijo Chéri.

Os sustos guardo nos apuros
Bem escondidos  entre os seios
Sem abrir o bico para o grito
Dos gemidos que espremo
Nas coxas roliças dos meus dias
Cobrando rezas e pecados
Na dor do ferro a brasa
Queimando  as lembranças
Marcadas  nos lábios
Do gosto esquisito do Beijo Chéri.

          Alcinéia Marcucci 




quarta-feira, 26 de janeiro de 2011





Poemas De Artur Gomes

Na leitura dos poemas deste poeta desvairado
sente-se o corte
que perfura a pele
cicatriza a alma
grafita a grafia
despindo os códigos
entre os poros e os pêlos!


Confesso que por estes detalhes adoro comê-los! 



Ind/Gesta

uma caneta pelo amor de deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
um computador
nem que seja pós moderno
vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a lídia
que a mediocridade
desta idade mídia
não coca cola mais
Nem aqui nem no inferno




                                             Artur Gomes

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


                                                                            Perigos(0,70x1,00m)



Mama Mia


Mama Mia late na minha ladeira

Tece teias no meu labirinto

De perdições labiais perdidas entre os cristais,

Invasoras das folhas de vidro que me enamoram

Nas ladainhas que cortam minha pele de algodão

Como um sopro de lama queimada pela laje

Que lança meus satélites na sonda destes espaços

Engolidos pelos dedos lambidos do tempo.

Mama Mia mia nos meus telhados

Arranha as foices da minha lâmpada

Desmancha os laços das minhas mãos

Bebe o leite das minhas lembranças

Embebidos no vinho tinto das uvas

Circulares mastigadas pelas lanternas

Que beliscam os meus músculos

E fermentam a pele dos meus lençóis.

Mama Mia ronca nos meus sonhos

Ri dos inícios sem fim que me defloram

Esconde meus medos, empurra meus segredos

Lavoura meu corpo para o amor,

Meus olhos nascentes do leste para a dor

De um sol vermelho perfumado pelas rosas

Por entre os reflexos dos meus planos

Que velejam sobre o sopro das asas dos meus cílios.

Mama Mia Pia sem pagar  licença das minhas taxas

Uma nova lenda sobre os meus pés sem chão.

Há um lobo-do-mar velando meus sonhos!

Há um dedo de moça apimentado minhas sílabas

Entre o mar salgado que vaza dos meus poros

Sem bússola que atravesse o centro da minha gravidade

Sem agulha que penetre nas minhas cavidades

De borboletas voando sobre nuvens grávidas demais

Para deixarem pousar velhas mariposas sobre a terra.


                                         Alcinéia Marcucci

Mama Mia é o mistério das emoções da Arte que me degusta, me bebe, me come entre um gole de vinho e gotas de tinta na chuva, e, ainda  não me bastasse, quando menos espero ela escapa  por entre a grade dos meus dentes e toda enxerida vai bater perna por entre as vielas medievais da "Toca do Zorro" ...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


                                                                    Margarida



Constrangida Margarida andava de passos largos na avenida Consolação que nada consolava suas consoantes absorvidas  na tortura das descrições. Havia ao menos uma leveza estampada balançando entre seus quadris num algodão cru desmanchado até seus joelhos nunca prostados diante de alguma reza.

Carente da conjuntura, Margarida entrava na feira sacudindo o pandeiro debochado e seus seios murchos , despetalados de um bronzeado laranja que desencravou quatro filhos de cima do muro desabado em sua cabeça de mulher miolo mole despencada do salto vermelho para catar as pulgas fincadas na sola dos caçadores de seus pés.

Margarida era de astúcia atrevida, tinha dentes afiados, sempre bem amolados para a defesa, porém seus olhos de mel cuspiam fogo, lançavam faíscas sobre aqueles que ousassem zombar da sua sinceridade liberta de farsas e desculpas. Equilibrada em seu salto de plástico barato carregava o peso da sua carne mal amada e perfumada pelo óleo do pecado que alguns indigentes passaram  no seu corpo de curvas perigosas para brincadeiras sem endereço.

Com seus galhos tortos Margarida retornava da feira com uma sacola de limões na mão direita e uma sacola pesada e misteriosa na esquerda arrastando olhares e fofoca da vila desocupada. Todos alargavam sua história entre um gole de pinga do boteco ou uma dor de cotovelo das velhas gastadoras de dentaduras na janela.Afinal, Margarida  era piada do olhar falecido que abria uma  cova de mitos sobre aquela mulher de pandeiro debochado que andava trabalhando com os ponteiros correndo contra o relógio do tempo sempre querendo passar a perna no seu destino. Ela não tinha ouvido para a língua do povo que tentava arranhá-la. Seus ouvidos pertenciam ao samba, seu corpo balançava no remelexo do tambor sobre seus ombros largos que abriam a avenida para seu caule seco.

Margarida era a flor do incômodo. Era a fantasia barata dos homens e o fantasma caro das mulheres. Um fantoche jogado no chão da cidade parece morto, mas quando a inocência lhe empresta a mão, é parida a vida! Assim era ela, parida pelas mãos de alguma magia que balançava seus farrapos perfumando os ares.

Por qual motivo por na cruz a flor do incômodo? Ela ter nascido sem sorte não é motivo! Ela trabalhar de sol a sol , amada por estátuas de pedra e esculturas de gelo não cria motivos! Ela crescer na fossa e sambar como uma rainha não costura motivos para ascenderem o fósforo na sua fogueira e jogarem água nas faíscas de mel de seus olhos.E nesta fornalha a língua do povo ia queimando, os olhos desmanchando no formigamento entre as primaveras sem flores de Margarida.

Já era noite quando ela chegara em sua casa. Seu teto não cobria promessas, e seu chão era liberto da sombra dos homens carnívoros. Todos já estavam criados e amados, somente a solidão lhe abraçava aquela noite. Margarida curtiu seu corpo nos limões da caipirinha tirando os farrapos do corpo laranja. Embebida entre a realidade e o sonho fechou a janela de seu quarto, tirou a essência do corpo do seu homem da sacola pesada,abriu os lençóis brancos que cobriam seu mais puro amante que a esperava intacto o dia todo sem possibilidade alguma de distanciar-se de suas mãos ou apunhalá-la pelas costas.

Ela sentou-se, abriu suas pernas e juntou-se a ele com seus dedos salpicados pelas águas que alisavam seu corpo úmido, ele ficava imóvel enquanto ela acarinhava seu rosto, desenhava seus dentes e quase beijava seus lábios. Ela remodelava suas curvas, redesenhava seus mamilos, fazia cócegas nos seus pés, abraçava suas costas, e ele, resistia paralisado, enfeitiçado aos encantos dela que ia desvendando  seu corpo, destilando as partes de seu sexo entre um punhado ou outro de argila num desejo secreto e ereto.

A coruja cantava já era tarde demais,então Margarida cobria-o novamente com os lençóis, lavava seu corpo murcho do barro amolecido e ia dormir sem saber ao certo se modelava apenas mais uma escultura ou desejos entre a terra que andava  impregnada por debaixo de suas unhas com o cheiro do pecado misturado aos seus dons.

Por debaixo dos lençóis o jovem ser esculpido sentia ânsia por não pode se mover ao encontro das mãos modeladoras que lhe acarinhavam, o barro dos seus músculos escorria  embriagado  pelo pandeiro debochado que carrega no caule toda beleza gasta do mundo.Mas, como uma escultura coberta e imóvel nada lhe restava além de molhar de lágrimas cor de terra os lençóis brancos de Margarida que dormia coberta de segredos.

                                                              Alcinéia Marcucci
















sexta-feira, 14 de janeiro de 2011


Ao Som dos Devaneios (0,80 X 1,00 m)



Cambaleando


 Quem eu sou  depende da medida que os dias emprestam.
Caminho  na espada de ter dois pesos nas costas
Duas medidas  cantantes na melodia dos  meus braços
Que sopram  cânticos sedutores para minhas adivinhas.
Às vezes tenho a impressão  de caçar  a poesia!
Com  minhas artérias sugar a sua seiva
Nos caracóis  vermelhos do meu corpo
Engolidores das cápsulas  aveludadas do vento
Num trem à vapor  disparado de  palavras
Entre as linhas desenfreadas dos meus dedos.
Outras  vezes cavo um buraco para fugir da poesia!
Das suas correntes sonoras que perturbam meu cochilo,
Dos xavecos de suas chaves que querem abrir o meu cofre
Das lentes de seus olhos que querem despir os meus códigos
Fujo  reto para ela  não corroer os meus disfarces circulares
Que ainda me guiam no labirinto escuro que carrego nos olhos.
Porém às vezes, tenho a impressão de bailar com a poesia!
Deflorar a flor da pele que lhe veste,
Tocar sua língua, beijar seu céu
Saborear suas linguagens subversivas,
Sentir na saliva as suas palavras lambidas
Cutucando meus lábios num orgasmo consistente
Na decolagem de um  trem  tocando o útero das nuvens.
Por outras vezes tenho a impressão de renegar a poesia!
Deixá-la  escondida nas paredes que me olham aborrecidas
Numa sede de se moverem além das certezas do concreto
Fugir da proteção do teto que pesa sobre suas cabeças
Que almejam a liquidez de seu corpos sólidos,
Enquanto eu congelo meus pensamentos nas suas gavetas,
Coloco uma pedra nas palavras descoladas
Das lavas subterrâneas  do meu íntimo aborrecido.
Mas , às vezes, quando penso que tudo está sólido,
E que as pedras não têm pernas para caminhar
Na direção dos meus pensamentos ciganos
A poesia me tapeia, carrega as pedras nas costas
Cambaleando cai  sem palavras nos meus braços
Se encaixa nas falhas do meu corpo
Mostrando para o cemitério dos meus olhos
Que as almas voam e as pedras amam
O toque modelador das águas sobre elas.
                                                Alcinéia Marcucci

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011









Não há como construir o passado embrulhado no presente!
Não há como  não abrir a porta e deixar de catar os cacos! 
A  incerteza  nos entrega  vidas  feridas na acidez do tempo.
Novos ares  se  acasalam com  o acorde dos danos
Os seios da pátria alimentam sua procriação,
Ela gatinha entre  a aglomeração, faz ninho  na mata
Isenta de alarmes, vagareza e perdão
Dos nossos  dedos aglutinados na terra
Que nós consome numa ânsia sem dó.

Que as gotas de esperanças sejam descobertas da lama!
Que as mãos do tempo joguem as bênçãos sobre seus filhos!
Que o brilho nos olhos seja maior que a saudade!
Que  o povo seja mais forte que a barbárie ilimitada!
Que  a família  não perca  a fé  no meio dos escombros!
Que a criança não  perca o sonho no meio da realidade! 

É preciso força para  levantar vôo  num céu cortado ao meio!
É preciso força para andar sem chão, arriscar vôo sem asas
Nas montanhas  nebulosas que choram,

Com os olhos rasos d' água dos janeiros.
Que Deus abençoe toda esta gente!
                                     Alcinéia Marcucci
 Fonte das imagens:http://br.noticias.yahoo.com/s/

Como ajudar as vítimas das chuvas da Região Serrana do Rio
Cruz Vermelha
Praça da Cruz Vermelha 10, Centro do Rio.

Estão sendo arrecadados:
água mineral, alimentos de pronto
consumo (massas e sopas desidratadas, biscoitos, cereais),
leite em pó, colchões, roupa de cama e banho e cobertores.
        AJUDEM A AMENIZAR ESTA DOR! 
NÃO FECHEM OS OLHOS!
Pontos de ajuda em SP

Em São Carlos, as doações podem ser feitas até o fim do mês no box 2 do Mercado Municipal, na sede da Associação Comercial (Rua General Osório, 415) e na Avenida Sallum, 656. Outras informações pelo telefone (16) 3362-1900.



Em Pirassununga, há pontos de coleta em todas as unidades de saúde, no prédio da prefeitura e no barracão da Fepasa. No sábado (15), o exército vai percorrer os bairros da cidade para arrecadar alimentos, roupas e produtos de limpeza.


Em Araraquara, os pontos de arrecadação estão sendo definidos e a campanha deve começar na segunda-feira (17).


Fonte dos pontos de ajuda em SP: http://eptv.globo.com/noticias/

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Susto tribalizado (1,00 x 1,20 m)


Aborto




Dois homens armados arrombaram a porta
Duas vidas longas na mão de dois canos curtos
Balas 38 ameaçam-se serem descascadas
Na boca dos meus pais, no céu do meu país
Sem pára-brisa, sem pára-choque,pára-lama
Para evitar o choque da paralisia devoradora
Parafernália que extingue os direitos iguais.
Parasitas viciados, dopados em paranóias
Abortam sonhos, cortam asas, matam no ninho
A esperança de um povo sem paradeiro
Nascido nas coxas de páginas viradas
Entre linhas tortas e seios secos de amor e paz.
São Paulo chora uma chuva sem parar!
Quem mandou crescer as margens do Tietê?
Um menino de dez anos morreu soterrado,
Mãe e filha desembrulhadas da lama
Uma garrafa pet exibe seu verde longa vida
Na cara travada das margens do rio.
O lixo entope os bueiros, nada sobra do sobrado,
Sonhos nadam alagados com os ratos,
Parlamentares nadam no dinheiro
Escalam a escala da subida do salário
Alto demais para toda esta fossa
Cheirada pelo povo atolado no imposto
De gente desaparecida, sem pé, cabeça ou barriga
Inundadas de promessas impostoras!
Imposto do automóvel, da casa, da estrada,
Imposto para comida, o sexo, o sono,
Imposto para todos os lados.
Imposto para todos nós!
Imposto para andar, amar, beber,
Imposto para encostar, nascer, morrer,
Imposto com juros, correção monetária,
Para quem quer viver neste mar de imposto
De notas quentes, notas frias,
Gelando os pés que partem sem dó
Num abismo profundo do cheque sem fundo
No cartão vermelho que a unha borrou
A cara do povo de palhaço pintou
Com o próprio imposto que o povo pagou!
Presta atenção! Liquidação da vida a prestação!
Imposto pra ser gente!
Imposto pra morrer!
Têm gente morrendo alagado, afogado,
Com ou sem pagar imposto.
Têm ladrão correndo roubar, matar,
Para não pagar imposto!
Enquanto o povo trabalha,
Colarinhos de Gravata
Arrotam dinheiro por aí.
Credo!!!

             Alcinéia Marcucci




Infelizmente o tráfico, as drogas, os assaltos, os desastres ambientais consequentes ou não das atitudes de um povo não possuem endereço fixo. Estão aí, aqui, roubando vidas, sonhos e a dignidade de um país. É vergonhoso saber que parlamentares se preocupam no reajuste de 61,8% em seus salários de R$ 16,5 mil e fecham os olhos para a precariedade que se encontra diante de seus cílios. Ontem o Jornal Nacional exibiu as condições lamentáveis do atendimento de saúde em Porto Velho, a dignidade está em baixa, e o perigo morando bem ao lado de nós, dentro das ações, medos e erros que cometemos entre alguns acertos, em nossas casas engaioladas nos muros altos com cercas elétricas. Olhos contemplam a vida por detrás das grades da janela enquanto o sol beija a face amanhecida.
Confesso que depois que os pertences, a honra e os sonhos dos meus pais foram roubados dentro de ameaças e humilhações, ando desconfiada, sinto o medo na pele e o peso das nossas leis contraditórias nas costas.
É preciso força para  seguir em frente! É preciso força para não sujar os pés! É preciso força para não desviar do caminho!É preciso força para alimentar sonhos dentro de um pesadelo! É preciso força para ver a vida do meu pai cortada ao meio! É preciso força para tirar os olhos do alagamento! É preciso Força!



sábado, 8 de janeiro de 2011




        ARTE PARA CACHORRO

A internet é um mundo pequeno, cabeça de agulha possível de passar até mesmo as linhas invisíveis das terras de Corumbataí: “Toca do Zorro”,terra que amo e sonho de forma apertada, afinal, Corumbataí é um Vale, uma Vila de poucas ruas para dirigir muitos sonhos.
Escrevi no desabafo logo abaixo, de forma descompromissada e à toa  que pintar dói muito, por que pinto tudo aquilo que sinto, mas o que sinto não é o que as pessoas querem ver. Não condeno o meu povo e  muito menos meus  desejos  incontroláveis. A grande maioria da população é atraída pelo belo, até mesmo na posse de nossa primeira presidente mulher, a beleza da esposa do nosso vice- presidente prevaleceu sobre o deslumbre de um fato inédito para o  nosso país.
Pintar dói, pois pinto para mim mesma. Perguntam  porquê continuo a pintar  se pintar cria espinhos em meu corpo? No meu íntimo a resposta  não quer calar, ela grita!
Poderia pintar a beleza  que todos almejam contemplar como uma forma de ilusão. Poderia pintar o visível, as paisagens naturais da minha terra, seus rios, cachoeiras, arvoredos, porém não pinto-os, sou uma corumbataiense ingrata, pinto a realidade invisível que cutuca a humanidade. Pinto  a força, o sonho e a dor que muitos não querem mostrar. Pinto a feiúra também, os meus defeitos de humana, que carrega a balança do bem e do mal nos ombros. Pinto de forma surreal por que do comum o inferno está cheio.
A internet ainda me salva do isolamento artístico que vivo por estas bandas da “Toca do Zorro”, usufruo de contatos artísticos geradores de amizades ocultas que no fim do túnel conseguem avistar e até sentir as fagulhas da minha Arte, isto tampa o buraco dos faróis vermelhos , e minhas tintas metem o nariz sem serem chamadas para fora da " Toca ". Ressalto que na sua sabedoria  J. Costa Jr soube descrever como ninguém a melhor amiga  de um homem que é a Solidão em seu texto EU TE AMO SOLIDÃO no seu  blog http://passaaregua.blogspot.com/ . A solidão consola  os tapas da realidade sobre uma alma que insiste em não se entregar a arte  de fácil comercialização.
Pintar dói, mas prefiro sua dor , os chutes dos dias no trasseiro do que falsas promessas que são destiladas por aí. Meu sonho hoje? Que mais pessoas possam  adquirir o olhar cultural do meu cachorro! A pintura não é apenas para ser vista, é para ser sentida senão, não é Arte, e, meu Deus, como aquele cachorro Vira- lata  sente minha pintura, assim, naturalmente!!! Não lhe dou nada em troca por isso, nem água, comida, ele sente a Arte  gratuitamente por puro prazer! Como? Toda vez que pinto necessito encostar meu quadro no muro do jardim e dar uma certa distância para olhá-lo melhor e conseqüentemente corrigir as falhas, nisto, meu cachorro para de frente aos vãos da cerca, e olha compenetrado no fundo dos olhos que pinto nos quadros, parece que no seu íntimo canino surge um meio de conversa animal  com a pintura, ele late como querendo dizer algo, dá uma pausa,fica quieto, como se a pintura falasse algo diretamente nos seus olhos baixos que lacrimejam e respondem novamente a tela com latidos altos. Observo quase imóvel o diálogo  do quadro e o cachorro entre um gole de vinho.
Que pena que os cachorros não falam, apenas sentem, apenas amam!!!
                                            Alcinéia Marcucci

 Pintar dói....

A solidão me dá um tapa na cara
Com seu ramo de franqueza.
No espelho do meu quarto
Ela me encara nua de juras
Descolada de promessas
Que não colam na minha pele
De três décadas vadias.
A impureza dos meus olhos
Diz a ela quem eu sou:
Um corpo de esboço barato
Corroído pelas baratas
Que me penduram na cruz
Apertam todo meu pus
Querendo espremer esta Arte
Que parte minhas veias
Numa cova rasante
De mergulhos em Marte.
Meu corpo insaciável e ralé
Sobrevive por estas terras,
Insiste em apodrecer nos olhos
Raivosos das baratas canibais.
O espelho da solidão roliça
Teima  em me roçar por dentro
Fazer nó nas minhas tripas,
Cócegas no meu útero.
Nós duas  rimos  das rimas das vielas
Desconcertadas pelos nossos dedos
 Deletados das linhas retas
Dos traços delicados
Infiltrados no  meu rosto
Camufladores desta  eclosão
Das assombrações reais
Que vejo pelo espelho  das vitrines.
Tudo fora das medidas , tudo morto,
Para os sentidos que me vestem,
Só meu cachorro sente o andar das baratas,
Só me cachorro escuta as baratas vazias,
Ele toca o grito das rosas  no jardim
Há muito espinho entre os quadros
E  pintá-los  dói muito
Só meu cachorro sabe.............
                           Alcinéia Marcucci




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011







Quero lavar a alma do pranto silencioso
Quero meter os braços no meu fundo abrasador
Abraçar todas as cartas que me comem por dentro
Abrir a cadabra que alfineta minha língua,
Envolver o abstrato  nesta pele pintada
Me virar do avesso  das pintas e sonhar.
Quero abandonar os confins do Judá
Aglutinados na minha gula por liberdade,
Encaixar  minha pele no bálsamo do consolo
Que perdoa minhas falhas adulteras
Desgrudando meus olhos da dilatação
Do derretimento  dos dias desiguais.
Quero rasgar os meus disfarces
Grávidos  de desinvestimentos
Me vestir da nudez desafortunada
Aquecer meu corpo do frio da desordem
Arrepiar meus pêlos do orgasmo corriqueiro
Que floresce no meu corpo  sem primavera.
Quero escavar os escombros da ruínas
Escorraçar os ratos  escondidos no porão
Fazer um arrastão no medo esposado
Metido a besta no meu quadril branco,
Vazar  por entre a estreiteza da minha intimidade
Invadir os ares largos numa fuga do imprestável
Que ousa ejacular entre minhas frestas.
                                  
                                                 Alcinéia Marcucci



Lembranças de Maria

Entre os encargos encravados que carrego
Nas manhãs escarnadas dos meus dias
A saudade galopa na minha infância
Encharcada nas saudades de Maria.
Maria era a beleza virgem
Vivia isolada das vaidades do mundo
Cresceu imune as leis de etiqueta
E aos ensinamentos da cidade.

Maria!Vamos brincar Maria?
Vamos brincar de esconde-esconde?
De pega- pega e amarelinha?
Vamos correr atrás dos vaga-lumes
Subir no pé de jabuticaba
E tomar banho no rio?
Comer amora no pé!
Tomar água da biquinha!
Vamos ver quem  chega primeiro?
Vamos Maria!!!!!!!!!!

Eu menina de oito anos grudava em suas mãos de seda,
Ela tinha vinte anos, era minha Virgem Maria 
Mulher com coração de criança, Criança  com corpo de mulher
Coberto por uma pele branca, tão pura,
Que o sol desta terra morena não a queimava com seus pecados.
Ela tinha de graça toda a perfeição que as mulheres compram
Enjauladas em seus tratamentos,academias e fingimentos.
Maria era a verdade livre, andava do único jeito que sabia
Mesmo num calor intenso, com aquela roupa quente
Maria surpreendia, sua pele branca virava uma tela de Arte
E o sol atrevido pintava duas maçãs em seu rosto
Que carregava nos olhos todo o verde das jóias do mundo.
Lembrava-me muito a princesa Diana curvada
À majestosa natureza que coloria nossos pés de terra vermelha.
Vivia escondida numa casa de barro,era musa dos pássaros,
Tomava banho de rio e da cachoeira que beirava sua casa
O luxo passava longe de lá! A casa era de barro e eu menina
Morria de medo que desmoronasse encima da perfeição de Maria.

Maria! Vamos brincar Maria!
Pegar peixe de peneira!
Catar goiaba pra doce!
Fazer casinha de areia!
Chupar laranja -lima!
Brincar de Tarzan nos cipós?
Fincar nosso nome na árvore!
Como nunca mais Maria?

Maria ía casar-se, como podia alguém com coração de criança casar?
Como ninguém me avisou antes que Que Maria ia casar com João!
Chorei naquela tarde na sombra de uma araucária
Perdi minha Virgem Maria para a paixão.
Mesmo assim insisti em ver seu casamento,
O vento do transporte secava minhas lágrimas,
Estava junto do povo das fazendas vizinhas,
Eles cantavam todos na carroceria dos caminhões de laranja
O vestido de noiva vestiu Maria de pureza  entre aquelas terras,
Foi a melhor festa que já fui, um baile de princesa no mato,
O povo da roça dançava entre os calos da enxada,
Mineiros,baianos,paulistas, bugres empoleirados na alegria
Inocente do interior que levaram  para outras terras.
Nunca mais vi aquela gente, os anos caminharam com as mudanças do meu corpo
Maria continuava inocente, carregando uma boneca de carne e osso nos braços.
Quando eu estava com catorze anos Maria partiu para outra cidade,
Nunca mais a vi e nem quero ver  a sua  pureza extinta pelos faróis da cidade. 
Com a sua partida o Rio Corumbataí ficou revoltado, virou do avesso,
Mudou o seu rumo, a cachoeira de saudade não aguentou e estourou,
Derrubaram a casa de barro e toda a pureza que havia por estas bandas.


                                                                    Alcinéia Marcuci

                            Este é um pedaço da minha infância com Maria.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011




Nas minhas desenvolturas a vida gira

Borbulha nos arredores do meu corpo
Apronta travessuras no meu umbigo,
Brinca de escorregar nos meus seios
E do alto dos meus bicos saltados ela pula
Na corda bamba dos dias desgastados.
Neste deserto  desenxabido minha vida arde!
No céu da minha nublado de minha boca
Ela salta de braços abertos entre os raios
Desafiando  a cólera  do desequilíbrio
Na majestade de um sonho ereto.
Me desfio  nas facas do desfiladeiro
Minha vida   se desfralda em vento
Sinto um soco ligeiro batendo no meu peito
Gritando ferozmente nas minhas engrenagens.
Meus pensamentos não se enquadram nas medidas
Escorregam-se nos deslizes que as pedras oferecem
Nos meus vãos despidos e sarcásticos,
Desocupados dos diques primorosos
Meus sonhos dilacerados pela realidade
Voam entre  os anéis de Saturno
Querendo espaçar  o comensurável
Sentir os dedos da sensibilidade
Abrirem  a gaiola do Vale que habito
Remontarem o quebra- cabeça
Da coluna- vertebral da minha Arte
Faminta por escalar as montanhas que me cercam
Abrir os pincéis e voar no infinito
Com as meninas arteiras dos meus olhos.

                               Alcinéia Marcucci
        

sábado, 1 de janeiro de 2011



O Êxtase ( 1,00 X 1,20m)


  1 de Janeiro( Folha Verde)

                                                              
Abro os braços para um ano novo

Ele me envolve com sedas brancas
Na liturgia da minha lucidez.
Olho os  pássaros que cantam aqui fora,
Os galhos balançam na minha janela
Um verde de pão amanhecido e embebido
No orvalho que range as manhãs entre meus pés.
Um ano novo brota entre velhas vidas
Uma formiga desenha novo passos
Sobre a velha árvore cansada,
A pobre  não pode abraçar os pássaros
Que amamentam-se de suas frutas
Fazendo cócegas em suas axilas enraizadas
Na euforia dos seus dias corrosivos.
O ano novo camufla o tempo
Para ser digerido com mais suavidade
Na vertigem  que beija nossa pele
Entre a ousadia de  um andar contente
Sobre as nuvens nascidas do leste,
Nas saudades amargas de outono
Refrescadas  pelo sumo quente do verão
Respinga a ilusão das forças renovadas
Investidas  no ressoar do novo
Penetrável nos nossos órgãos
Como uma  esperança fantasmagórica
Que carregamos nas nossas costas.
Olho a  formiga levando a folha nova
Sem pesares para sua moradia
No pé da velha árvore do tempo
Arejada pela sombra da ilusão.

                        Alcinéia Marcucci