sexta-feira, 17 de dezembro de 2010


                                                                              Pão e Vinho


A realidade me cansa,
Me dá náuseas com seus discursos patéticos,
Me espreme, me vira do avesso, atordoa meus ideais.
Então, como quem nada busca
Nestes horizontes perdidos,
Solto meu ar comprimido
Num refúgio escondido
Das câmeras e botões
Que escravizam almas perdidas por aí.
No meu refúgio há muita fome e sede
De rasgar os verbos que me apertam
Os personagens que acertam
As veias do meu coração,
Fora do refúgio me sinto uma estátua
Com a língua seca, pulsar estático,
Retração total e caimbra entre os dedos.
Mas, quando me refugio nas minhas entranhas,
Os óvulos d'arte procriam dentro de mim
Sugando minha seiva plantada neste sangue vermelho
Que jogo nos pincéis como se fosse uma colher
Alimento as bocas sedentas das telas brancas
Telas que me olham fracas
Quase me engolindo                                                                                                                          Pedindo minhas mãos
Mãos pequenas que lhe emprestam sem juros
O espelho da minha alma feminina
Leoa às vezes menina
Dragão às vezes mulher
Lanço o  fogo dos meus  lábios
Nas telas de algodão cru
Que cozinha e tempera
Todos meus anseios
Que voa do céu da minha boca
Como uma estrela louca
Em todas as dimensões
Que me façam provar a liberdade.

                                   Alcinéia Marcucci

2 comentários:

  1. Este poema quase me traduziu! Você é maga, além de tudo: capta sensações e sentimentos de nós, mulheres artistas, em busca de um sentido pras nossas vidinhas medíocres !
    Amo seu trabalho, não me canso de repetir .
    Beijo grande ! [tiete mode on/]

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  2. Sou grata sempre a ti minha amiga!!! Obrigada por sentir a sensibilidade que corroe os meus ossos!É complexo e mágico sermos mulheres, e ainda de brinde,termos almas artísticas,é como vivermos descobrindo um mistério por dia.
    Abraço

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