terça-feira, 26 de abril de 2011


Rio Corumbataí( Uma das veias da Terra)



Oh, Mãe D' água!
Fecundadora da vida
Minha sede só têm prazer
No soro do teu sabor
Que purifica os corpos e as almas
Dos seres vivos em evolução.
Como o sangue correndo em nossas veias
És tu correndo esses rios à fora
Fazendo o coração do planeta pulsar
Entre a imensidão deste mar.
Oh, Mãe D' água!
Minhas lágrimas salgadas
Querem se unir em teu oceano
Nas suas águas que se dissolvem no meu corpo.
Num futuro sedento talvez
Só haja lágrimas para se banhar
Já me sinto uma gota  d'água
Consumida pelo olhar voraz do futuro...

Neste momento ninguém te Vê!

Ninguém sente seu sabor
Quando  tu desagua peito à fora matando a sede
Quando tu evapora formando as nuvens
Quando fica com frio e se transforma em gelo
Quando desce dos céus em forma de chuva...

Ninguém te vê!

És por que és pura e transparente?
És hidrogênio e oxigênio que escapa por entre os dedos
Por isso ninguém quer te acariciar,
Te deixam escapar entre corações à fora.
Oh, Mãe de todos os que têm sede
És o orvalho, o suor, a pura vida
Presente de Deus.

Mas ninguém te Vê!

Falam que és incolor!
Como? Se és o arco-íris do céu.
Que é inodora, sem cheiro.
És o perfume da chuva que exala no ar
Tocando nosso peito
Fazendo nosso coração pulsar
Na melodia de batidas constantes
És o sopro divino
Que se dissolve em algum olhar
Entre o semear da vida
Sobre as almas secas.

Alcinéia Marcucci

sábado, 23 de abril de 2011


Olhos na Solidão 


Me misturo nos vultos
Que beijam minha face
Me quebro em partes
Para meus sonhos famintos
Mergulho no absinto
Me transformo em vinho tinto
Na língua das horas amargas.
Me embaralho nas cartas
Que conduzem meus dedos
A riscar as telas
A arriscar a vida
Entre riscos perdidos
Na andança dos meus sonhos
Sem âncora sobre as tintas.
Sou dama danada
Pela tinta lavada
Pela vida provada
Pela terra comida.
Sou alma atrevida
Pela  arte parida
Pela gente lambida
Pelo tempo engolida.
Sou bicho do mato
Grudado na jaula
De asas cortadas
Pelo meu território.
Sou flecha sem guia
Freio sem guarda
Sumindo de vista
 No túnel derretido
Das minhas digitais...


                                                                                                 Alcinéia Marcucci








Criar é simples, não dói e alivia a alma.
O mundo dos sonhos é informal e infinito.
Difícil é continuar a criar numa realidade que espreme
Entre dias estáticos e silenciosos em que vivo 
Que apenas oferecem miragens.
Pinto o céu mas não vôo
O caminho que não trilho
Tenho o grito na boca
E um cadeado entre os dentes.
Ser artista na liberdade é fácil.
Até quando suportarei ser artista na dor
Que vive tentando abortar meus sonhos?
Não vejo sinais e não ouço respostas.
Apenas há silêncio e mistérios.
A.M.




domingo, 3 de abril de 2011





A Renascida
Pintura  Dissolvida no Prato 


Nos meus trinta anos...


Nos meus trinta anos
Minhas janelas são estreitas
Não sinto o sol da manhã
Não vejo a linha do horizonte
Emaranhando-se nos meus cabelos.
Tenho fogo dentro de uma pedra de gelo,
Uma bomba em contagens partidas,
Ãnsia da minha intimidade parida
Com a vida estacionada na vitrine.
Nos meus trinta anos
Meus ossos querem estilhaçar os vidros
Cuspir nos rótulos e marcas,
Andar sobre a luz que seduz
O brilho da minha retina.
Dormir nos telhados encantados
Retorcer tudo que me retraí
E faz de mim um momento
Um restolho que grita
Entre a réstia do tempo.
Quero apagar as moléstias 
Que molestam minhas pinturas
Ressonar com os pincéis
Minhas notas inatingíveis.
Quero naufragar em mim mesma
Redobrar as moléculas
Que mordiscam minha alma.
Nos meus trinta anos
Quero renascer por inteira
Voar entre as barreiras
Que  oprimem os meus pés.
Quero ser tudo por completo,
Juntar as minhas partes
Recolher os meus retalhos
Destes anos mornos.
Quero recasar-me
Com os meus sonhos nômades
Dispenso a vida noviça
Com seus dias nublados.
Não quero rever o passado
Nem prever o futuro
Quero o agora que me deflora
Por eu mesma.
Nos meus trinta anos
Quero soltar as faíscas
Da Arte que me consome
Na chuva retraída dos meus olhos
Sem armadilhas ou rodeios.
Quero rolar no rodízio
De minha vida  dividida em fetas
Pedaços e facetas
Com gosto  orvalhado e apimentado
Do vermelho do meu Eu.


Alcinéia Marcucci


sexta-feira, 4 de março de 2011









Disforme 


Perdi os meus modos
Rasguei os modismos
Quebrei a moldura 
Que molestava meu rosto.
Esfarelei as  moléculas
Me reverei em cubos
Cones, cilindros
Seios nos olhos
Olhos nas coxas
Boca no sexo
Céu na boca
Língua nos ares
Comendo as moscas,
Palavras na sopa
Da área do barulho.
As múmias se levantam
Das pinturas cubistas
Tropeçam nas formas
Com a cara no concreto,
Ossos por todos os lados
Almas a navegar no céu,
Batucada com ossos
Umbigada de vento
Beijo de sopro mordido
No perfume que veste
A caveira ambulante
A mulher de cubos
Encaixada nos fósforos
Que ascende a alma
Riscando a vida
Na chama que chama
A vida que ascende e apaga
Num sopro só.
Quero me virar em cubos
Tinta, fogo, chama
Na cama, no ventre
De frentre, pra trás.....
No cais do País do Navegar
Vejo o barco voando
No sopro do vento
Penetrando as nuvens
Despindo os mares
Na fúria das marés
Que batem nos meus pés....


Alcinéia marcucci





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


ENZINA NO CÉU


Gostaria de ter retratado  minha amiga Enzina de forma clássica e acadêmica.Porém, meus dedos me traíram com suas vontades próprias de brincar com as formas e as cores, dançando loucamente sobre a tela com pinceladas de passos desordenados, desenfreados, fortes, sem rédeas ou divisas que pudessem segurar seu ritmo leve como o vento que escapa por entre os dedos e forte como a brasa que arde sobre os pés criando ao som dos pés de cerdas dos pincéis sobre a paleta de tinta a obra "Enzina no céu" como um brinde a Arte e a amizade que une os povos e liga os mares.


Segue abaixo palavras desta querida amiga




"Meu corpo era um sonho da asa tatuado em mil centelhas, cor e luz...manter a precisao dos séculos.. espessura apenas no ar...que apagou o meu nome
ternamente na mao de Alcinéia: taxas...portas e uma muhler de sangue sin fecho...Deixo sinal pura que marcam um caminho que em outro momento
unamos poesia e pintura sen dúvida de humanos..."


"Vas por tu esencia permitida,
cuando despiertas al color...sabor...olor... de los cuerpos.
El lugar es aquel que alcanza todo fervor...
Regresas por la huella del aroma embriagada de sueños."

"Sigo jugando a los colores ... y poner palabras
Sera la vida sin más..
con todo
con nada
sin cuerpo y sin nombre...
Lineas y círculos...
Reflejo oblicuo.
Atraviesa tormentas con resplandor de heridas."

Enzina Santacroce

sábado, 26 de fevereiro de 2011

                                                                                          Pintura de Pedro Rascado

Dizem que os olhos são a janela da alma.  Acredito que os olhos também sejam  a porta do infinito aberta para novos mundos escondidos no brilho raso d'água que nasce na escuridão.



Eu queria ser bicho


Cansei de ouvir as notas noviças
Olhares nocivos sobre meus passos.
Cansei de ser dama, mulher delicada
Dos olhares satânicos e das Virgens Marias.
Cansei de ser santa, sardinha enlatada
Na sarjeta embolada sem vencimentos.
Cansei de ser as putas mãos de seda
Sem toque ou sapatilhas
Uma carícia ou ponta-pé
Sobre as notas espremidas
Na melodia do silêncio
Das curvas do meu corpo.
Eu queria ser bicho!
Amar como os bichos
Sem pedir licença!
Pecar sem pagar sentença!
Devorar tudo que me devora
Comer e ser a comida
Tocar e ser sentida
Com instintos sem extinção.
Rasgar no dente as marcas
Que rabiscam meu ventre
Entre espinhos e entulhos
Devorados por urubus.
Eu queria ser bicho
Me coçar nas folhas
Viver sem endereço
Desconhecer o preço
Que se paga por ser artista.
Eu queria ser bicho
Escapar deste zoológico
De produção em série
De desordem ilimitada
De humanos congelados
Nas agulhas do próprio ego.
Eu queria ser bicho
Caça e caçadora
Da liberdade
Que bate nas grades
De minha janela
Lambe minha face
E parte riscando o céu.



Alcinéia Marcucci







" Não pinto o que vejo. Pinto o que sinto e um pouco do que sou: uma alma desgarrada numa gaiola de carne e ossos." Alcinéia Marcucci