sábado, 8 de janeiro de 2011




        ARTE PARA CACHORRO

A internet é um mundo pequeno, cabeça de agulha possível de passar até mesmo as linhas invisíveis das terras de Corumbataí: “Toca do Zorro”,terra que amo e sonho de forma apertada, afinal, Corumbataí é um Vale, uma Vila de poucas ruas para dirigir muitos sonhos.
Escrevi no desabafo logo abaixo, de forma descompromissada e à toa  que pintar dói muito, por que pinto tudo aquilo que sinto, mas o que sinto não é o que as pessoas querem ver. Não condeno o meu povo e  muito menos meus  desejos  incontroláveis. A grande maioria da população é atraída pelo belo, até mesmo na posse de nossa primeira presidente mulher, a beleza da esposa do nosso vice- presidente prevaleceu sobre o deslumbre de um fato inédito para o  nosso país.
Pintar dói, pois pinto para mim mesma. Perguntam  porquê continuo a pintar  se pintar cria espinhos em meu corpo? No meu íntimo a resposta  não quer calar, ela grita!
Poderia pintar a beleza  que todos almejam contemplar como uma forma de ilusão. Poderia pintar o visível, as paisagens naturais da minha terra, seus rios, cachoeiras, arvoredos, porém não pinto-os, sou uma corumbataiense ingrata, pinto a realidade invisível que cutuca a humanidade. Pinto  a força, o sonho e a dor que muitos não querem mostrar. Pinto a feiúra também, os meus defeitos de humana, que carrega a balança do bem e do mal nos ombros. Pinto de forma surreal por que do comum o inferno está cheio.
A internet ainda me salva do isolamento artístico que vivo por estas bandas da “Toca do Zorro”, usufruo de contatos artísticos geradores de amizades ocultas que no fim do túnel conseguem avistar e até sentir as fagulhas da minha Arte, isto tampa o buraco dos faróis vermelhos , e minhas tintas metem o nariz sem serem chamadas para fora da " Toca ". Ressalto que na sua sabedoria  J. Costa Jr soube descrever como ninguém a melhor amiga  de um homem que é a Solidão em seu texto EU TE AMO SOLIDÃO no seu  blog http://passaaregua.blogspot.com/ . A solidão consola  os tapas da realidade sobre uma alma que insiste em não se entregar a arte  de fácil comercialização.
Pintar dói, mas prefiro sua dor , os chutes dos dias no trasseiro do que falsas promessas que são destiladas por aí. Meu sonho hoje? Que mais pessoas possam  adquirir o olhar cultural do meu cachorro! A pintura não é apenas para ser vista, é para ser sentida senão, não é Arte, e, meu Deus, como aquele cachorro Vira- lata  sente minha pintura, assim, naturalmente!!! Não lhe dou nada em troca por isso, nem água, comida, ele sente a Arte  gratuitamente por puro prazer! Como? Toda vez que pinto necessito encostar meu quadro no muro do jardim e dar uma certa distância para olhá-lo melhor e conseqüentemente corrigir as falhas, nisto, meu cachorro para de frente aos vãos da cerca, e olha compenetrado no fundo dos olhos que pinto nos quadros, parece que no seu íntimo canino surge um meio de conversa animal  com a pintura, ele late como querendo dizer algo, dá uma pausa,fica quieto, como se a pintura falasse algo diretamente nos seus olhos baixos que lacrimejam e respondem novamente a tela com latidos altos. Observo quase imóvel o diálogo  do quadro e o cachorro entre um gole de vinho.
Que pena que os cachorros não falam, apenas sentem, apenas amam!!!
                                            Alcinéia Marcucci

 Pintar dói....

A solidão me dá um tapa na cara
Com seu ramo de franqueza.
No espelho do meu quarto
Ela me encara nua de juras
Descolada de promessas
Que não colam na minha pele
De três décadas vadias.
A impureza dos meus olhos
Diz a ela quem eu sou:
Um corpo de esboço barato
Corroído pelas baratas
Que me penduram na cruz
Apertam todo meu pus
Querendo espremer esta Arte
Que parte minhas veias
Numa cova rasante
De mergulhos em Marte.
Meu corpo insaciável e ralé
Sobrevive por estas terras,
Insiste em apodrecer nos olhos
Raivosos das baratas canibais.
O espelho da solidão roliça
Teima  em me roçar por dentro
Fazer nó nas minhas tripas,
Cócegas no meu útero.
Nós duas  rimos  das rimas das vielas
Desconcertadas pelos nossos dedos
 Deletados das linhas retas
Dos traços delicados
Infiltrados no  meu rosto
Camufladores desta  eclosão
Das assombrações reais
Que vejo pelo espelho  das vitrines.
Tudo fora das medidas , tudo morto,
Para os sentidos que me vestem,
Só meu cachorro sente o andar das baratas,
Só me cachorro escuta as baratas vazias,
Ele toca o grito das rosas  no jardim
Há muito espinho entre os quadros
E  pintá-los  dói muito
Só meu cachorro sabe.............
                           Alcinéia Marcucci




5 comentários:

  1. Muito bom. É assim que acontece aqui em Amparo tambem.
    Meus parabens Alcinéia.

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  2. Bom Alcinéia, sou até suspeita para dizer o que achei, mas claro que achei perfeito! Gostei muito do Poema "Pintar Dói", mas como você pode imaginar, muito mais ainda o "Arte pra Cachorro", aliás, acho que você deveria tentar publicar isso no Jornal Cidade naquelas colunas que escrevem lá, cairia muito bem! Mais uma vez parabéns! De sua amiga que está sempre na torcida por vc! Bjos

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  3. Valeu amigos as palavras e o apoio para assim sobrevivermos com nossos devaneios neste mundo de Arte para Cachorros!
    Abraço

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  4. Selma ...é mesmo Alcinéia,tem gente q acha que é só colocar tinta no pincel e aprender uma téc-
    nica. Mas há muita coisa por trás de cada pince-lada e no ritmo da respiração.E as vezes isso dói,porque nos descobrimos.Abraços,Selma.

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  5. Alcinéia, chorei com estes dois últimos posts! É muito do que sinto , é muito do que penso , mas seu talento é maior e extrapola no sentimento e na sensação que tenho.
    Paralelamente às Artes Plásticas, não pensa em escrever um livro ? É emoção pura o que vc escreve, e escreve BEM!
    Fico lisonjeada de ter uma amiga,mesmo que virtual, como você. Meus parabéns; poucas coisas me fazem chorar , qdo se trata de Arte e Poesia!

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