quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



Lembranças de Maria

Entre os encargos encravados que carrego
Nas manhãs escarnadas dos meus dias
A saudade galopa na minha infância
Encharcada nas saudades de Maria.
Maria era a beleza virgem
Vivia isolada das vaidades do mundo
Cresceu imune as leis de etiqueta
E aos ensinamentos da cidade.

Maria!Vamos brincar Maria?
Vamos brincar de esconde-esconde?
De pega- pega e amarelinha?
Vamos correr atrás dos vaga-lumes
Subir no pé de jabuticaba
E tomar banho no rio?
Comer amora no pé!
Tomar água da biquinha!
Vamos ver quem  chega primeiro?
Vamos Maria!!!!!!!!!!

Eu menina de oito anos grudava em suas mãos de seda,
Ela tinha vinte anos, era minha Virgem Maria 
Mulher com coração de criança, Criança  com corpo de mulher
Coberto por uma pele branca, tão pura,
Que o sol desta terra morena não a queimava com seus pecados.
Ela tinha de graça toda a perfeição que as mulheres compram
Enjauladas em seus tratamentos,academias e fingimentos.
Maria era a verdade livre, andava do único jeito que sabia
Mesmo num calor intenso, com aquela roupa quente
Maria surpreendia, sua pele branca virava uma tela de Arte
E o sol atrevido pintava duas maçãs em seu rosto
Que carregava nos olhos todo o verde das jóias do mundo.
Lembrava-me muito a princesa Diana curvada
À majestosa natureza que coloria nossos pés de terra vermelha.
Vivia escondida numa casa de barro,era musa dos pássaros,
Tomava banho de rio e da cachoeira que beirava sua casa
O luxo passava longe de lá! A casa era de barro e eu menina
Morria de medo que desmoronasse encima da perfeição de Maria.

Maria! Vamos brincar Maria!
Pegar peixe de peneira!
Catar goiaba pra doce!
Fazer casinha de areia!
Chupar laranja -lima!
Brincar de Tarzan nos cipós?
Fincar nosso nome na árvore!
Como nunca mais Maria?

Maria ía casar-se, como podia alguém com coração de criança casar?
Como ninguém me avisou antes que Que Maria ia casar com João!
Chorei naquela tarde na sombra de uma araucária
Perdi minha Virgem Maria para a paixão.
Mesmo assim insisti em ver seu casamento,
O vento do transporte secava minhas lágrimas,
Estava junto do povo das fazendas vizinhas,
Eles cantavam todos na carroceria dos caminhões de laranja
O vestido de noiva vestiu Maria de pureza  entre aquelas terras,
Foi a melhor festa que já fui, um baile de princesa no mato,
O povo da roça dançava entre os calos da enxada,
Mineiros,baianos,paulistas, bugres empoleirados na alegria
Inocente do interior que levaram  para outras terras.
Nunca mais vi aquela gente, os anos caminharam com as mudanças do meu corpo
Maria continuava inocente, carregando uma boneca de carne e osso nos braços.
Quando eu estava com catorze anos Maria partiu para outra cidade,
Nunca mais a vi e nem quero ver  a sua  pureza extinta pelos faróis da cidade. 
Com a sua partida o Rio Corumbataí ficou revoltado, virou do avesso,
Mudou o seu rumo, a cachoeira de saudade não aguentou e estourou,
Derrubaram a casa de barro e toda a pureza que havia por estas bandas.


                                                                    Alcinéia Marcuci

                            Este é um pedaço da minha infância com Maria.

2 comentários:

  1. Olá Alcinéia!
    Muito lindo esse texto.Sua poética é forte não só na pintura,mas na escrita tbém.Selma.

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  2. Poxa! Obrigada Selma!!! Na verdade estou utilizando o blog como um diário! Pois os cadernos que começei a escrever, abandonei logo nas primeiras páginas, já no blog, há esta troca de idéias que me estimula sempre a não ter medos de desabafar!!!
    Grande abraço

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