quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


                                                                    Margarida



Constrangida Margarida andava de passos largos na avenida Consolação que nada consolava suas consoantes absorvidas  na tortura das descrições. Havia ao menos uma leveza estampada balançando entre seus quadris num algodão cru desmanchado até seus joelhos nunca prostados diante de alguma reza.

Carente da conjuntura, Margarida entrava na feira sacudindo o pandeiro debochado e seus seios murchos , despetalados de um bronzeado laranja que desencravou quatro filhos de cima do muro desabado em sua cabeça de mulher miolo mole despencada do salto vermelho para catar as pulgas fincadas na sola dos caçadores de seus pés.

Margarida era de astúcia atrevida, tinha dentes afiados, sempre bem amolados para a defesa, porém seus olhos de mel cuspiam fogo, lançavam faíscas sobre aqueles que ousassem zombar da sua sinceridade liberta de farsas e desculpas. Equilibrada em seu salto de plástico barato carregava o peso da sua carne mal amada e perfumada pelo óleo do pecado que alguns indigentes passaram  no seu corpo de curvas perigosas para brincadeiras sem endereço.

Com seus galhos tortos Margarida retornava da feira com uma sacola de limões na mão direita e uma sacola pesada e misteriosa na esquerda arrastando olhares e fofoca da vila desocupada. Todos alargavam sua história entre um gole de pinga do boteco ou uma dor de cotovelo das velhas gastadoras de dentaduras na janela.Afinal, Margarida  era piada do olhar falecido que abria uma  cova de mitos sobre aquela mulher de pandeiro debochado que andava trabalhando com os ponteiros correndo contra o relógio do tempo sempre querendo passar a perna no seu destino. Ela não tinha ouvido para a língua do povo que tentava arranhá-la. Seus ouvidos pertenciam ao samba, seu corpo balançava no remelexo do tambor sobre seus ombros largos que abriam a avenida para seu caule seco.

Margarida era a flor do incômodo. Era a fantasia barata dos homens e o fantasma caro das mulheres. Um fantoche jogado no chão da cidade parece morto, mas quando a inocência lhe empresta a mão, é parida a vida! Assim era ela, parida pelas mãos de alguma magia que balançava seus farrapos perfumando os ares.

Por qual motivo por na cruz a flor do incômodo? Ela ter nascido sem sorte não é motivo! Ela trabalhar de sol a sol , amada por estátuas de pedra e esculturas de gelo não cria motivos! Ela crescer na fossa e sambar como uma rainha não costura motivos para ascenderem o fósforo na sua fogueira e jogarem água nas faíscas de mel de seus olhos.E nesta fornalha a língua do povo ia queimando, os olhos desmanchando no formigamento entre as primaveras sem flores de Margarida.

Já era noite quando ela chegara em sua casa. Seu teto não cobria promessas, e seu chão era liberto da sombra dos homens carnívoros. Todos já estavam criados e amados, somente a solidão lhe abraçava aquela noite. Margarida curtiu seu corpo nos limões da caipirinha tirando os farrapos do corpo laranja. Embebida entre a realidade e o sonho fechou a janela de seu quarto, tirou a essência do corpo do seu homem da sacola pesada,abriu os lençóis brancos que cobriam seu mais puro amante que a esperava intacto o dia todo sem possibilidade alguma de distanciar-se de suas mãos ou apunhalá-la pelas costas.

Ela sentou-se, abriu suas pernas e juntou-se a ele com seus dedos salpicados pelas águas que alisavam seu corpo úmido, ele ficava imóvel enquanto ela acarinhava seu rosto, desenhava seus dentes e quase beijava seus lábios. Ela remodelava suas curvas, redesenhava seus mamilos, fazia cócegas nos seus pés, abraçava suas costas, e ele, resistia paralisado, enfeitiçado aos encantos dela que ia desvendando  seu corpo, destilando as partes de seu sexo entre um punhado ou outro de argila num desejo secreto e ereto.

A coruja cantava já era tarde demais,então Margarida cobria-o novamente com os lençóis, lavava seu corpo murcho do barro amolecido e ia dormir sem saber ao certo se modelava apenas mais uma escultura ou desejos entre a terra que andava  impregnada por debaixo de suas unhas com o cheiro do pecado misturado aos seus dons.

Por debaixo dos lençóis o jovem ser esculpido sentia ânsia por não pode se mover ao encontro das mãos modeladoras que lhe acarinhavam, o barro dos seus músculos escorria  embriagado  pelo pandeiro debochado que carrega no caule toda beleza gasta do mundo.Mas, como uma escultura coberta e imóvel nada lhe restava além de molhar de lágrimas cor de terra os lençóis brancos de Margarida que dormia coberta de segredos.

                                                              Alcinéia Marcucci
















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