domingo, 3 de abril de 2011





A Renascida
Pintura  Dissolvida no Prato 


Nos meus trinta anos...


Nos meus trinta anos
Minhas janelas são estreitas
Não sinto o sol da manhã
Não vejo a linha do horizonte
Emaranhando-se nos meus cabelos.
Tenho fogo dentro de uma pedra de gelo,
Uma bomba em contagens partidas,
Ãnsia da minha intimidade parida
Com a vida estacionada na vitrine.
Nos meus trinta anos
Meus ossos querem estilhaçar os vidros
Cuspir nos rótulos e marcas,
Andar sobre a luz que seduz
O brilho da minha retina.
Dormir nos telhados encantados
Retorcer tudo que me retraí
E faz de mim um momento
Um restolho que grita
Entre a réstia do tempo.
Quero apagar as moléstias 
Que molestam minhas pinturas
Ressonar com os pincéis
Minhas notas inatingíveis.
Quero naufragar em mim mesma
Redobrar as moléculas
Que mordiscam minha alma.
Nos meus trinta anos
Quero renascer por inteira
Voar entre as barreiras
Que  oprimem os meus pés.
Quero ser tudo por completo,
Juntar as minhas partes
Recolher os meus retalhos
Destes anos mornos.
Quero recasar-me
Com os meus sonhos nômades
Dispenso a vida noviça
Com seus dias nublados.
Não quero rever o passado
Nem prever o futuro
Quero o agora que me deflora
Por eu mesma.
Nos meus trinta anos
Quero soltar as faíscas
Da Arte que me consome
Na chuva retraída dos meus olhos
Sem armadilhas ou rodeios.
Quero rolar no rodízio
De minha vida  dividida em fetas
Pedaços e facetas
Com gosto  orvalhado e apimentado
Do vermelho do meu Eu.


Alcinéia Marcucci


sexta-feira, 4 de março de 2011









Disforme 


Perdi os meus modos
Rasguei os modismos
Quebrei a moldura 
Que molestava meu rosto.
Esfarelei as  moléculas
Me reverei em cubos
Cones, cilindros
Seios nos olhos
Olhos nas coxas
Boca no sexo
Céu na boca
Língua nos ares
Comendo as moscas,
Palavras na sopa
Da área do barulho.
As múmias se levantam
Das pinturas cubistas
Tropeçam nas formas
Com a cara no concreto,
Ossos por todos os lados
Almas a navegar no céu,
Batucada com ossos
Umbigada de vento
Beijo de sopro mordido
No perfume que veste
A caveira ambulante
A mulher de cubos
Encaixada nos fósforos
Que ascende a alma
Riscando a vida
Na chama que chama
A vida que ascende e apaga
Num sopro só.
Quero me virar em cubos
Tinta, fogo, chama
Na cama, no ventre
De frentre, pra trás.....
No cais do País do Navegar
Vejo o barco voando
No sopro do vento
Penetrando as nuvens
Despindo os mares
Na fúria das marés
Que batem nos meus pés....


Alcinéia marcucci





segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011


ENZINA NO CÉU


Gostaria de ter retratado  minha amiga Enzina de forma clássica e acadêmica.Porém, meus dedos me traíram com suas vontades próprias de brincar com as formas e as cores, dançando loucamente sobre a tela com pinceladas de passos desordenados, desenfreados, fortes, sem rédeas ou divisas que pudessem segurar seu ritmo leve como o vento que escapa por entre os dedos e forte como a brasa que arde sobre os pés criando ao som dos pés de cerdas dos pincéis sobre a paleta de tinta a obra "Enzina no céu" como um brinde a Arte e a amizade que une os povos e liga os mares.


Segue abaixo palavras desta querida amiga




"Meu corpo era um sonho da asa tatuado em mil centelhas, cor e luz...manter a precisao dos séculos.. espessura apenas no ar...que apagou o meu nome
ternamente na mao de Alcinéia: taxas...portas e uma muhler de sangue sin fecho...Deixo sinal pura que marcam um caminho que em outro momento
unamos poesia e pintura sen dúvida de humanos..."


"Vas por tu esencia permitida,
cuando despiertas al color...sabor...olor... de los cuerpos.
El lugar es aquel que alcanza todo fervor...
Regresas por la huella del aroma embriagada de sueños."

"Sigo jugando a los colores ... y poner palabras
Sera la vida sin más..
con todo
con nada
sin cuerpo y sin nombre...
Lineas y círculos...
Reflejo oblicuo.
Atraviesa tormentas con resplandor de heridas."

Enzina Santacroce

sábado, 26 de fevereiro de 2011

                                                                                          Pintura de Pedro Rascado

Dizem que os olhos são a janela da alma.  Acredito que os olhos também sejam  a porta do infinito aberta para novos mundos escondidos no brilho raso d'água que nasce na escuridão.



Eu queria ser bicho


Cansei de ouvir as notas noviças
Olhares nocivos sobre meus passos.
Cansei de ser dama, mulher delicada
Dos olhares satânicos e das Virgens Marias.
Cansei de ser santa, sardinha enlatada
Na sarjeta embolada sem vencimentos.
Cansei de ser as putas mãos de seda
Sem toque ou sapatilhas
Uma carícia ou ponta-pé
Sobre as notas espremidas
Na melodia do silêncio
Das curvas do meu corpo.
Eu queria ser bicho!
Amar como os bichos
Sem pedir licença!
Pecar sem pagar sentença!
Devorar tudo que me devora
Comer e ser a comida
Tocar e ser sentida
Com instintos sem extinção.
Rasgar no dente as marcas
Que rabiscam meu ventre
Entre espinhos e entulhos
Devorados por urubus.
Eu queria ser bicho
Me coçar nas folhas
Viver sem endereço
Desconhecer o preço
Que se paga por ser artista.
Eu queria ser bicho
Escapar deste zoológico
De produção em série
De desordem ilimitada
De humanos congelados
Nas agulhas do próprio ego.
Eu queria ser bicho
Caça e caçadora
Da liberdade
Que bate nas grades
De minha janela
Lambe minha face
E parte riscando o céu.



Alcinéia Marcucci







" Não pinto o que vejo. Pinto o que sinto e um pouco do que sou: uma alma desgarrada numa gaiola de carne e ossos." Alcinéia Marcucci



domingo, 13 de fevereiro de 2011





Meus dedos se movem apressados
Com ânsia de romper as divisas
Rabiscar os gritos da noite
Enclausurados  nos meus ossos
Borrados de vinho e tinta
Transpirados pelos vãos
Deste  tempo que me derrete
Em mel da goma de chiclete
Mascada sem anestesias
Pelos dentes amolados
Da dama da noite fria.
Meus dedos fazem lambança
Com meus desejos e vontades
Quebram minha castidade
Arrombam meus pensamentos
Bailam com meus pincéis
Entre minhas telas cruas
Emaranham novos traços
Reinventam novas formas
Disformes da realidade
Sem pesos e medidas
Que meçam meu deboche.
Meus dedos ascendem a vela
Dão cor a polpa grotesca
Escondida por etiquetas
De expressões Made in China
Das casas mal assombradas
Camuflando as janelas dos morcegos
Rasgando as teias das aranhas
Para tomarem um porre dum novo olhar.
Meus dedos rabiscam atalhos
Dentro da velha caverna
Para sentir o toque das cascatas
O canto de suas vacas
Entre um beijo de elefante
Nas minhas vontades e formigas
De faíscas fortes e rasantes
Indicando  o trem fantasma
A direção  da estrela guia
Do céu gramado entre o concreto
De homens plantados entre objetos
Misturados no pó de arroz
Da terra que me come sem perdão
Reza ou oração.
Meus dedos têm pressa....

                    Alcinéia Marcucci 




                   Obra " O Susto do Carnaval" (0,40x 0,40cm)


Ando pintando com poucos detalhes e mais sentimentos! Como já disseram por aí,  liberdade é não ter medo do ridículo e de se expor por inteira, revelando os mistérios que habitam a alma.
Quando terminei este quadro, que não levou mais de 13 minutos de pintura coloquei num canto do chão da sala para secar, minha mãe o observou e disse que deveria pintar paisagens e outras reproduções externas ,comuns aos nossos olhos.
Não pinto a realidade, a realidade já foi criada por Deus e remodulada pelos homens!
Pinto os meus extintos, e um pouco da dor, do amor, e do sofrimento, pois eles também existem, embora poucos vêem e sentem suas fagulhas lançadas por aí!
Ah! A respeito das vendas? Quero que elas se danem! Minha arte é isenta de rótulos, prêmios é etiquetas! Ela é de dentro para dentro. Anda extinta do extermínio do lado de fora que faz da expressão artística  comércio silencioso...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011


Predestinado (0,80 X 1,00 m)

A pintura morde minha pele


Desamarra meus medos mórbidos


Acerta na mosca elétrica


Ligada na minha força


Jogando no bicho enjaulado


Dentro do meu chapéu.


Chapéu que o vento leva,


Da cabeça avoada


Do meu corpo de vento


Levantado pelo tempo


Balançando em seus braços


As cinzas dos meus poros


Para a borracha do oásis


Escondida na areia.


Meus dedos murmuram


Invadem as nádegas das telas


Devoram sua brancura


Mergulham nas tintas


Criam vidas sobre elas


Na ânsia da eternidade


Gerada pelo meu vão pagão.


Eu sou o nada mudo


De naufrágio cigano.


Mudo. Mudo meu grito


Mudo meus dedos


No deslizar de uma nova obra


De vida estéril sobre os riscos


Estáticos  entre o movimento


Dançado ao som dos ruídos do fim


Entre as carícias famintas


Acasaladas na mão do tempo


Que apertam o calor de minhas brasas


Esculpindo minhas cartas


Sem rótulo e destino


Em mel, pimenta e cinzas


Jantadas pelo mar.




Alcinéia Marcucci