quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


TOM MORAES
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Visitem este artista iluminado de alma e coração
no seu  Blog Cia Pierrot de Teatro


Amizade
Para Tom Moraes

Surgiu esta bendita!
Sem data marcada,
Sem um trocado furado,
Sem dízimos ou remunerações,
Seca, desmembrada de todos os dogmas,
Sem documentos, desdentada das dores,
Dos donativos podres,
Com os olhos dormentes,
Entre a fantasia do efêmero
Grudada nas coxas trêmulas de fome,
Enjoada de enterrar a misericórdia
Na comunhão dos dias sem dó.
Transfigurou-se entre meus olhos saturados
Bolhas de várias cores, um jogo de dominó
Levantando um vôo sem perder as peças,
Enterrando-se sem alimentar os vermes,
Andando na brasa sem queimar os pés,
Abrindo meus olhos dentro do fogo
Devorando os escorpiões vermelhos
Num empate de certezas  duvidosas
A amizade surgiu como um vaga-lume
Batendo as asas  codificadas de dominó
À clarear o caminho  embrionário dos nossos pés..

                                                Alcinéia Marcucci








segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Mar e Eu

O sol me queimava com suas artimanhas,
E o mar parecia querer me abraçar
Com suas ondas em ascenção azulada
Entre a negritude dos meus olhos.
O barulho das ondas era abrasador,
Queria abortar os meus medos,
Insistia em tomar-me em seus braços
Banhar-me dos seus agrados amanhecidos.
Tentei ser forte, ajuízada,não ajoelhar-me aos seus encantos,
Mas o vento amigo do mar vinha acariciar os meus lábios
Escorregar em minha pele de pluma
Para eu sentir o oque da ilusão
E unir meu corpo curvilíneo nas curvas das suas ondas aguçantes.
O mar era lindo, o céu queimava em brasa,
E eu, mulher desforrada do peso do mundo,
Leve e alvo dos dilúvios, me desmanchei  em mel
Caminhando, me dilatando em seu encontro
Derrubando os contornos do castelo de areia,
Que coletava a seiva da minha sede e anseios.
Trêmula me aproximei já quase desfolhada,
O calor havia derretido a vergonha da minha face,
Olhei  novamente o mar, as pontas atrevidas dos seus dedos
Molhavam e riscavam a areia à um metro do meu corpo
Como querendo dizer-me algo fictício.
Quis recuar-me, não me ligar a seu corpo líquido,
Não me dissolver nas suas profundezas
Mas quando olhei para trás, o vento tinha apagado meus passos,
Estava sem rumo, sem direção e arduamente prosegui andando,
No quarto passo, seus dedos gelados tocaram meus pés,
Fiquei um tempo imóvel, sentindo suas carícias em meus dedos,
Foram como que me puxando a continuar a caminhada
Enquanto que a  sua salgada nervatura  abraçava minhas pernas
Minhas formas se deformaram no seu corpo transparente e colossal.
Podia sentir o toque ,enquanto sua liquidez penetrava em meu umbigo,
Dei os últimos passos dentro de seu corpo e o abraçei por inteiro
Meus braços podiam penetrá-lo e isto era instigante,
Mergulhei fundo neste amor, arrombei as arruaças
Toquei em seus órgãos, na sua orgia e orgulho de todas as maneiras cabíveis.
O mar continuava a me levar, lavava minha  alma, me trazia  leveza.
Podia ver-me em seus olhos que refletiam
A busca latente de liberdade e prazer absoluto
Com todo o seu líquido que bebia minha transpiração,
Brindando  a vida na concha do meu útero,
Esquina do romance onde brotavam as pérolas do  corpo
Entre a safira  que aquecia com seus pingentes de néon
Os gemidos ardentes da lua  batendo entre nossa desordem.
Ouvi os últimos cânticos da seresta das ondas que me alimentavam e adormeci
Abraçada junto com ele: O mar.
Quando acordei, estava em pétalas na areia,
O mar movia-se em silêncio, nem um toque, nem um chamado,
Não sei se sonhei ou o amei até a última gota de nossos desleixos desavisados.

                                                                 Alcinéia Marcucci


sábado, 25 de dezembro de 2010



                                                                                    Predestinado
               


Meus dedos desacordados me desafiam
Desacompanham minha incertezas
Desacreditam no meu comodismo
Me jogam contra  a parede das dobraduras

Depenadas da dissonância do tempo.

No intervalo dos meus dedos

Os distúrbios se dissolvem

Numa pintura nua e crua,

Aventurando-se na atmosfera

Entre pedras e olhares canibais

Bordando o caminho escuro

Camuflando as ciladas

Que beijam os meus  cílios.

Meus dedos desabusados

Querem chupar o mel

Que escorrem  entre a polpa

Carnuda dos meus olhos

Rompendo o cativeiro

Das minhas interrogações.

Meus dedos desabrigados

Persistem em cutucar minha Fera,

Querem catar o vento suave

Fazendo cócegas  nas minhas cavidades

Tão cavernosas para o cofre do meu eu

Deste dia após dia que desconheço

Entre as deduções dos meus dedos

Curvos  enroscados nos pincéis

Prostrados  perante o dilúvio

Das divergências paridas

Entre a sombra e a luz

Da união amorosa das tintas

Que meus dedos dilatando-se

Atiçam à acasalarem

Na palma das minhas mãos.
                             Alcinéia Marcucci




sexta-feira, 24 de dezembro de 2010



À Flor da Pele



A Flor da Pele me deflora,
Me inflama, me espinha,
Me toma, come e engole
Todos os meus medos, meses, anos,
Minha vida doce mergulhada na salmoura.
A Flor da Pele me cobre
Com seu perfume macio
Esquentando meu corpo
Para eu vingar o empate,
Brotar, nascer, chocalhar,
Quebrar as cascas do ovo
Numa overdose clara
De gemidos da gema
Amarela nascente que rega meus pés.
A flor da Pele percorre
Minhas ramificações vermelhas
Perfura meu silêncio
Me entrega de bandeja
Despetalada a confessar
Que vivo à Flor da Pele
De pelica que penica
Minha fina película
Que arrepia todos meus pêlos
Acarinha meus cabelos
Desabotoando  minha pele
Num desabrochar  abusado
De feitiços e sensações
Destiladas entre espinhos
Com o  perfume faminto
Do poder do infinito.
                    Alcinéia Marcucci


Devaneios
(1,20 x 1,70m)

Façam um brinde?

A alegria e a desgraça
Dedicada a figura da mulher?
Mulher ás vezes amada, cantada, xingada,
Devorada, lambida,lembrada...
Entre um copo qualquer.
Copo dos mergulhos a nado,
Onde as mágoas se afogam e não morrem
E os desejos latentes sobrevivem
No drinque, na taça, na concha,
No útero, nas lágrimas, nos lábios
Entre doses de  injúrias  trincadas.
Toda mulher é uma incógnita,
Trilhar seus caminhos é um rumo sem volta
Um labirinto sem saída, onde o homem  na descida
Com sua cara lambida, tropeça na própria embriaguez.
Embriaguez entre a cara e a coroa
Da mulher cama leoa, besta de mil faces,
Abestalhada de mil  watts
Embebida  no oito ou oitenta
Que constrói, alimenta,arrebenta,
Caras de tacho, ferro ou cristal
Num prato de lua cheia entre cabelos de sereia
Rasgando a ampulheta do tempo,
Com seu corpo  areia movediça
Move-se  por entre os  poros,

Molhando  de anseios os lençóis,
Orvalhados da  sua  pele  uva doce
Apertada, esmagada, transformada
Em vinho tinto  entre os dedos
Uma cascata à flor da pele,
Despetalando-se por entre as estações
Sugada pelos Beija- Flores
Degustadores de cores e amores
Que vazam por entre os dentes...
                                      Alcinéia Marcucci 


terça-feira, 21 de dezembro de 2010


A Feracidade (1,30 x 1,70m)


Há uma fera dormente
Que brinca a nado nas minhas geleiras
Se enrosca no náilon dos meus pêlos
Se espreme nas minhas nádegas
Faz cócegas nas minhas narinas
E navega nos meus seios.
Há um nó forte entre nós,
Ativando nossos átomos,
Numa atração atômica
Entre véus atribulados
No auge da criação.
Há  uma fera em mim que ainda luta,
Baila na tempestade,
Abraça a mediocridade
Para banhar-se no bálsamo
Junto aos bandoleiros
Numa pulsação  em ritmo cigano
Das incertezas viajantes.
Há uma fera que puxa e repuxa
Meus pensamentos fora do que sou
Longe da onde vou e estou,
Arrancam eles da minha casca
Nota por nota, cor por cor,
Página por página,
Me rasgando e desfolhando.
A Fera vira  um arcanjo
Abrindo as cortinas do céu
Para meu corpo sentir a ardência
De astros inanimados e inatingíveis
Assolando os universos que pinto.
Pinto o suspiro, a substância  enigmática
Que não degusto mas me sustenta,
Pinto o insólido e talvez surreal
Que minha alma toma nom gole só,
Pinto o sonho, a minha fera,
Enquanto as mãos do tempo
Jogam as cartas do meu destino.
Pinto a circulação das minhas veias
Por que tudo que meu corpo rodeia
É parado, gelado e pequeno
Para saciar as faíscas da Fera
Queimando  o trânsito agitado
Da esfinge  que me rala inteira
Esfarelando- me  em tintas sobre as telas
Desafogadas das minhas circunstâncias.

                               Alcinéia Marcucci

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010


                                                                              Pão e Vinho


A realidade me cansa,
Me dá náuseas com seus discursos patéticos,
Me espreme, me vira do avesso, atordoa meus ideais.
Então, como quem nada busca
Nestes horizontes perdidos,
Solto meu ar comprimido
Num refúgio escondido
Das câmeras e botões
Que escravizam almas perdidas por aí.
No meu refúgio há muita fome e sede
De rasgar os verbos que me apertam
Os personagens que acertam
As veias do meu coração,
Fora do refúgio me sinto uma estátua
Com a língua seca, pulsar estático,
Retração total e caimbra entre os dedos.
Mas, quando me refugio nas minhas entranhas,
Os óvulos d'arte procriam dentro de mim
Sugando minha seiva plantada neste sangue vermelho
Que jogo nos pincéis como se fosse uma colher
Alimento as bocas sedentas das telas brancas
Telas que me olham fracas
Quase me engolindo                                                                                                                          Pedindo minhas mãos
Mãos pequenas que lhe emprestam sem juros
O espelho da minha alma feminina
Leoa às vezes menina
Dragão às vezes mulher
Lanço o  fogo dos meus  lábios
Nas telas de algodão cru
Que cozinha e tempera
Todos meus anseios
Que voa do céu da minha boca
Como uma estrela louca
Em todas as dimensões
Que me façam provar a liberdade.

                                   Alcinéia Marcucci