domingo, 1 de julho de 2012






Tempo!
Veneno lento que transporta 
Toda massa à pó.
Tempo!
Chuva de vento  que transborda 
Na beira dos olhos 
Uma saudade sem dó.
Tempo amargo e sedento!
Congela um momento
Algum acalento
Nos meus dias derretidos
Na tua saliva que lambe minha face!
Congela alguma verdade
Um beijo sincero
Nestes meus dias fingidos
Sem beijos e disfarces!
Tempo!
Veneno lento
Que distancia  meus dedos,
Vai cortando meus anos
E aumentando meus segredos.
Tempo que levou os meus brinquedos!
Leve meu corpo fresco.
Beba-o como um refresco,
Mas não devore  a fantasia 
Da maresia dos meus olhos.
Tempo!
No meu rosto tenho suas linhas
Me fazendo companhia
Costurando-me contra a parede,
Me deixando com sede
Das tantas polpas da vida já provadas.
Tempo!
Se eu pudesse te enganaria!
E com as linhas do meu rosto
Bordaria os bons ventos
Que escaparam dos meus dedos
Numa colcha de todas as cores
Para aquecer meu lado criança
Nas noites frias do inverno.
Tempo!
Que desmancha os castelos
Bate como um martelo
Bem no centro do meu peito
Brincando com minhas veias
Igual a  um gato ligeiro
Com o meu novelo de linha
Arraigado nas unhas
Cutucando a ferida
Da saudade doída da minha alma partida
Perdida sem compasso no seu passo
Extremamente veloz 
Evaporando os momentos
De todos nós.
Tempo!
Veneno lento,
Cruel e  mentiroso,
Chuva de vento que transborda
Na beira dos olhos 
Uma saudade tão só.
E na negra solidão,
Entre a triste brancura dos lençóis
Me aqueço nos seus nós
Apertando as  lembranças
Que crescem  no âmago sem dó.
Sem dó!



Alcinéia Marcucci



quarta-feira, 20 de junho de 2012



Mãe Terra (0,80 X 1,00 m)

Poesia do poeta  gaúcho Luiz Sérgio Quintian Costa

Sou do bem! Só o nosso amor incondicional unificado salvará
a alma de todos os seres vivos e a grande alma Terra da qual fazemos parte. - Quintian



DEUS É MULHER

(quintian)

Mulher! Sedução é o teu nome,
para te adorar me fiz homem.
Não parei de aprender
um minuto sequer,
esta ciência, esta arte,
a alquimia de amar.
É na combinação de energias,
desta química sem par,
que eu me fundo, me confundo,
que eu vou até o fundo,
só para encontrar
a tua prenda de ternuras.
A generosidade é tanta,
Que me comovo, é santa!
e de demo à musa, um passo,
de amiga à dançarina, o abraço.
Vais permitindo todos os meus vôos,
vou tentando todos os meus cantos,
e consagra-se a paixão, encantos,
fusão de cérebro e coração,
deliciosa confusão de liberdade e instinto.
Sou quase uma sombra que brilha,
Nada é impossível, tudo é provável,
A vida é um gosto, é ávida de prazeres.
O segredo revela-se, é único, é raro,
ela pode, ela busca, ela quer,
ela faz mais e melhor,
porque Deus é Mulher!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Na viagem ao desconhecido mergulhei dentro de mim e penetrando na escuridão de minhas entranhas senti a Arte numa luz de queimar os olhos e chocar as  minhas "crias" alimentando-as  para que possam quebrar  os ovos retraídos por este  sossego ou espremidos  pela  velocidade do metrô. 





Olhos na Solidão ( 0,70 X 1,00 m)



Anestesiada!

Com as costas viradas para o mundo fugaz.

Anestesiada! Sem sentir o chão e seus prazeres carnais.

Anestesiada com um dragão rompendo-me num apetite voraz

Garras afiadas picotando meu corpo rápido demais.

Corpo rasgado no chão com a mala na mão.

Pra que lado será que eu vou? Perguntei aos meus disfarces.

Em minha gaiola de carne e ossos mastiguei pedaços de interrogações

Já minha alma brejeira? Nossa! Como deslanchou sem medo nos quadros, lambendo as tintas

Lavando meus olhos, extasiando meus pelos e regando minhas pintas.

Os violinos tocavam minhas notas decompostas " Ao Som dos Devaneios"

Senti ali uma alma sem rodeios desgarrar-se do corpo do pianista. Que alívio! Não estou só!

Há outros corpos flagelados por almas inquietantes! Vi a sua alma levitar por alguns instantes!

Perdida no meu mundo, com os olhos fundos na medula dos mistérios.

Embaralhada nos contrastes descobertos e incertos na avenida sonâmbula de São Paulo

Ouvi o canto da minha tribo batucando com os meus ossos e fazendo cócegas nas minhas vísceras.

Não dormi. Chorei e ri rasgando a madrugada com " As mulheres que correm com os lobos"

Entre ruídos sorrateiros externos e uivados ferozes internos a noite saltou fundo no amanhecer.

Senti o cheiro das palavras e quis entrar em alguns quadros.

Vi olhos me chamando para contar os seus segredos.

Maldito artista que parte no infinito rejuvenescendo incógnitas!

Senti nas pinturas o calor dos dedos na coloração avermelhada

A luz do sol capturada no instante e ali eu quis me aquecer.

Senti as lágrimas da obra" Saudade" bem dentro dos meus olhos

E o movimento das pessoas nas telas paralisadas.

Lá fora leito de algodão nas ruas e calçadas.

Vi árvores com as mãos arraigadas no colo da terra

Enquanto outros com as mãos nem fazem amor, apenas guerra.

Ouvi almas me chamando para fora de minha sela.

Uma mescla de gente ascendendo minhas velas.

Texturas agridoces dissolvidas nas retinas

Pimenta queimando a ponta de minha língua

Derretendo na saliva as cores da emoção: " Fascinação"

Foi espanto dos meus olhos ou dos olhos da lua que prateava a avenida luminosa na contra- mão???

Perdida me reencontrei certos momentos no deserto da multidão

Com meu olhar ladrão inocente querendo apenas capturas instantes

E sensações sem nome, daquelas que correm além dos lobos

Algo que sei que deve estar muito além dos limites desta vida...


Alcinéia Marcucci




domingo, 1 de abril de 2012




O Toque na Dor (0,30 x0,30 cm )




Ah! Como eu amo o anormal!
Eu amo o feio, o olhar esquisito!
Aquele ser que ninguém vê.
Amo a simplicidade.
A terra vermelha colorindo a brancura dos més pés
E perfumando minhas frescuras!
Amo os detalhes
Escondidos nuns gestos
Secretos e discretos
Isentos da pretensão do mundo
E dos sorrisos falsos e vagabundos
Espalhados por aí.
Amo o olho no olho
Toque somente pelo toque
Beijo somente pelo beijo
Da língua que se movimenta no céu oposto
Da boca liberta de mentiras.
A verdade está no silêncio.
Na palavra não pronunciada
Naquela que foi guardada
Pois de tão verdadeira
Poderia, se lançada, virar o mundo pelo avesso.
Ah! Como eu amo o olhar e o silêncio!
Com eles não existe razão
Apenas apreciação
Da beleza secreta do amor.
Sim, eu sei que com ele um pouco de dor
Mas é uma dor diferente
É uma dor que cura
A doce criatura que assola o peito
Dos corpos imperfeitos.
Amo a ousadia! Talvez por isto a arte seja minha única religião.
Amo o sentimento como um todo! A expressão dos excluídos
Que trocam o pão pelo pão
Do trigo balançando nas mãos
Germinando uma sensação 
Maior que a liberdade
Nunca antes pronunciada
Pela língua dos homens.
Os mistérios me atraem,
As palavras que não estão nos dicionários
Nem no vocabulário das línguas nobres.
Amo e sou como os pobres
De alma cigana
Orvalho misturado com suor
Lágrima mistura com saliva
Desta terra lambida.
Sou uma gota no mundo
Que precisa de água pura da fonte
Sentidos e sensações que me  revistam de vida
E nada mais....

Alcinéia Marcucci



                                Toque pelo Toque (0,30 x0,30 cm)                                        

O Silêncio das Tintas












terça-feira, 14 de fevereiro de 2012



Uma andorinha androide
Anda em trapos sobre as anedotas
Algumas vacas tortas
Recriam sua próprias pintas
Algumas borboletas mortas
Tecem asas diurnas
Enquanto que algumas portas
Rangem os dentes para novos mundos.

Não estamos sós
Nesta Terra corcunda!
Há uma corda vibrando entre os dentes
No intervalo corado  dos segundos.
Há um som da água gemendo na fonte.
Não estamos surdos!

Não estamos sós
Neste calabouço sem fundo!
Há um calafrio gritando no estômago
Há uma ponte fazendo cócegas 
No cadeado dos mistérios
Destes sonhos tão profundos.
Não estamos mudos!

Um órgão oco pulsa
Notas sangradas sobre o peito
Algumas certezas sorriem
Dúvidas para o imperfeito. 
Vejo a hipocrisia  com sede da verdade
Sinto a fantasia nas costas da realidade.

Há um vento sem guia
Velando o vão dos seus dedos
Há um camaleão sem formas
Mudando a cor dos meus medos.
Ouço um quadril desarticulado
Encaixando-se num mar de gente
Sinto histórias tortas
Crescendo certas no ventre quente.



Não estamos sós
Nesta Terra corcunda!
Há uma corda vibrando entre os dentes
No intervalo corado  dos segundos.
Há um som da água gemendo na fonte.
Não estamos surdos!

Não estamos sós
Neste calabouço sem fundo!
Há um calafrio gritando no estômago
Há uma ponte fazendo cócegas 
No cadeado dos mistérios
Destes sonhos tão profundos.
Não estamos mudos!

Alcinéia Marcucci





domingo, 22 de janeiro de 2012




Mãe Terra em Mãos D'água 
(30 X 40 cm - Látex sobre Canson)

Conversa com Deus




Senhor!

Dai-me forças para voar
Dentro da minha imaginação.
Perdoai os meus passos fora da realidade
Minhas andanças na contramão  da humanidade
Meus extintos loucos que amamentam
As crias que ninguém vê
As vozes deleitadas no meu peito
Sangrando em vermelho curumim
 Toda a emoção lagrimada                                                                                                                       Na anemia de minhas telas.
Senhor!
Intercedei por mim!
Acalme esta minha alma deslocada
Que insiste em desancorar do meu corpo.
Senhor! Desperte o meu mar morto
Adormeça o dilúvio dos meus olhos
Dai-me o pão da liberdade
O  seu vinho tinto do amor
Suas mãos dentro do meu peito
Para curar minha dor.
O prato mais farto já não me alimenta
A  beleza externa já não me sustenta
Estou partida em fetas ,Senhor!
Senhor!
Dai-me  água da fonte
As cores do horizonte
Desgarre minhas raízes dos montes
Como uma árvore livre
Quero bater minhas folhas rosadas
Na brancura das nuvens Senhor!
Senhor!
Cure minha angústia!
Perdoe as dores que causo ao meu corpo sadio
Com esta minha alma inquietante.
Ela parece estar quebrando meus ossos
 Devorando meu sossego,                                                                                                                    Fervilhando meu sangue Senhor!  
Minhas lágrimas escorrem tão quentes        
Parece que até vou explodir
Na fome deste ideal!
Escutai as preces da minha alma  senhor!
Me corpo é mudo, sem voz.
É ela que grita
Entre meus poros.
Não deixai eu abortar os sonhos
No cativeiro dos ossos!
Há um feto deflorando meu peito
Oh me Deus! Sei que pode vê-lo!
Curai  a dor de minhas entranhas Senhor!!!

Amém!

Alcinéia Marcucci







sábado, 7 de janeiro de 2012

A Quebra
                                                                                              
A banda pulsa na banda
Esquerda do meu peito
O vermelho dos meus olhos acena
Denunciando minhas infrações
Vivo num banco sem fundos
Barraco sem teto
Baralho sem cartas
Pra barrar  o meu azar.
Sou artista sem asas
Costurando as lágrimas
Deste oceano profundo
Dos meus olhos vagabundos
Com fome e com sede
De abestalhar a cólera
Que roça meus lábios
E meus canivetes caninos.
Desalinhavo meus grilos
Me atolo no desatino
Num assombro de menino
Quando descobre os mistérios 
Do colo da lua cheia
No útero da solidão.
Entre um uivado medonho
Nas amarras de concreto
Um cordão umbilical discreto
Laça todos os meus fetos
Na palma de minha mão,
Alguns vingam-se em formas
Outros desmancham-se em cores
Na mistura dos sabores
Entre a  realidade e a ilusão.


Alcinéia Marcucci




Ando distante...
me decompondo na distância
da realidade sobre meus pés.
Ando disforme, contorcida, retorcida
destacada das medidas
pregadas nas paredes fantasmas
que assombram minha distração.
Ando entreaberta
com fome, com sede,
água na boca
de morder os pretextos
mastigar os contextos
das minhas dobraduras
diversificadas.
Ando amolada
com a língua afiada
sobre minhas vontades.
Ando com onças,
me mordendo inteira
desfiam as estribeiras,
as tintas que me namoram
sobre o mel das pinceladas.
Ando coruja
um grão sobre a terra
um sopro, um beijo
e nada mais.
Ando pra frente,
de cara pra trás.
Meus olhos andam com fome,
de algo sem nome
num giro concreto
com cara de feto
subindo os degraus
derretidos do tempo
que engolem o andar
das borboletas curvas
das abelhas tortas
das caras mortas
entre algumas portas
encostadas nos mortais
perdidos no país do navegar...

Alcinéia Marcucci