Tempo!
Veneno lento que transporta
Toda massa à pó.
Tempo!
Chuva de vento que transborda
Na beira dos olhos
Uma saudade sem dó.
Tempo amargo e sedento!
Congela um momento
Algum acalento
Nos meus dias derretidos
Na tua saliva que lambe minha face!
Congela alguma verdade
Um beijo sincero
Nestes meus dias fingidos
Sem beijos e disfarces!
Tempo!
Veneno lento
Que distancia meus dedos,
Vai cortando meus anos
E aumentando meus segredos.
Tempo que levou os meus brinquedos!
Leve meu corpo fresco.
Beba-o como um refresco,
Mas não devore a fantasia
Da maresia dos meus olhos.
Tempo!
No meu rosto tenho suas linhas
Me fazendo companhia
Costurando-me contra a parede,
Me deixando com sede
Das tantas polpas da vida já provadas.
Tempo!
Se eu pudesse te enganaria!
E com as linhas do meu rosto
Bordaria os bons ventos
Que escaparam dos meus dedos
Numa colcha de todas as cores
Para aquecer meu lado criança
Nas noites frias do inverno.
Tempo!
Que desmancha os castelos
Bate como um martelo
Bem no centro do meu peito
Brincando com minhas veias
Igual a um gato ligeiro
Com o meu novelo de linha
Arraigado nas unhas
Cutucando a ferida
Da saudade doída da minha alma partida
Perdida sem compasso no seu passo
Perdida sem compasso no seu passo
Extremamente veloz
Evaporando os momentos
De todos nós.
Tempo!
Veneno lento,
Cruel e mentiroso,
Chuva de vento que transborda
Na beira dos olhos
Uma saudade tão só.
E na negra solidão,
Entre a triste brancura dos lençóis
Me aqueço nos seus nós
Apertando as lembranças
Que crescem no âmago sem dó.
Sem dó!
Alcinéia Marcucci
