sábado, 26 de fevereiro de 2011

                                                                                          Pintura de Pedro Rascado

Dizem que os olhos são a janela da alma.  Acredito que os olhos também sejam  a porta do infinito aberta para novos mundos escondidos no brilho raso d'água que nasce na escuridão.



Eu queria ser bicho


Cansei de ouvir as notas noviças
Olhares nocivos sobre meus passos.
Cansei de ser dama, mulher delicada
Dos olhares satânicos e das Virgens Marias.
Cansei de ser santa, sardinha enlatada
Na sarjeta embolada sem vencimentos.
Cansei de ser as putas mãos de seda
Sem toque ou sapatilhas
Uma carícia ou ponta-pé
Sobre as notas espremidas
Na melodia do silêncio
Das curvas do meu corpo.
Eu queria ser bicho!
Amar como os bichos
Sem pedir licença!
Pecar sem pagar sentença!
Devorar tudo que me devora
Comer e ser a comida
Tocar e ser sentida
Com instintos sem extinção.
Rasgar no dente as marcas
Que rabiscam meu ventre
Entre espinhos e entulhos
Devorados por urubus.
Eu queria ser bicho
Me coçar nas folhas
Viver sem endereço
Desconhecer o preço
Que se paga por ser artista.
Eu queria ser bicho
Escapar deste zoológico
De produção em série
De desordem ilimitada
De humanos congelados
Nas agulhas do próprio ego.
Eu queria ser bicho
Caça e caçadora
Da liberdade
Que bate nas grades
De minha janela
Lambe minha face
E parte riscando o céu.



Alcinéia Marcucci







" Não pinto o que vejo. Pinto o que sinto e um pouco do que sou: uma alma desgarrada numa gaiola de carne e ossos." Alcinéia Marcucci



domingo, 13 de fevereiro de 2011





Meus dedos se movem apressados
Com ânsia de romper as divisas
Rabiscar os gritos da noite
Enclausurados  nos meus ossos
Borrados de vinho e tinta
Transpirados pelos vãos
Deste  tempo que me derrete
Em mel da goma de chiclete
Mascada sem anestesias
Pelos dentes amolados
Da dama da noite fria.
Meus dedos fazem lambança
Com meus desejos e vontades
Quebram minha castidade
Arrombam meus pensamentos
Bailam com meus pincéis
Entre minhas telas cruas
Emaranham novos traços
Reinventam novas formas
Disformes da realidade
Sem pesos e medidas
Que meçam meu deboche.
Meus dedos ascendem a vela
Dão cor a polpa grotesca
Escondida por etiquetas
De expressões Made in China
Das casas mal assombradas
Camuflando as janelas dos morcegos
Rasgando as teias das aranhas
Para tomarem um porre dum novo olhar.
Meus dedos rabiscam atalhos
Dentro da velha caverna
Para sentir o toque das cascatas
O canto de suas vacas
Entre um beijo de elefante
Nas minhas vontades e formigas
De faíscas fortes e rasantes
Indicando  o trem fantasma
A direção  da estrela guia
Do céu gramado entre o concreto
De homens plantados entre objetos
Misturados no pó de arroz
Da terra que me come sem perdão
Reza ou oração.
Meus dedos têm pressa....

                    Alcinéia Marcucci 




                   Obra " O Susto do Carnaval" (0,40x 0,40cm)


Ando pintando com poucos detalhes e mais sentimentos! Como já disseram por aí,  liberdade é não ter medo do ridículo e de se expor por inteira, revelando os mistérios que habitam a alma.
Quando terminei este quadro, que não levou mais de 13 minutos de pintura coloquei num canto do chão da sala para secar, minha mãe o observou e disse que deveria pintar paisagens e outras reproduções externas ,comuns aos nossos olhos.
Não pinto a realidade, a realidade já foi criada por Deus e remodulada pelos homens!
Pinto os meus extintos, e um pouco da dor, do amor, e do sofrimento, pois eles também existem, embora poucos vêem e sentem suas fagulhas lançadas por aí!
Ah! A respeito das vendas? Quero que elas se danem! Minha arte é isenta de rótulos, prêmios é etiquetas! Ela é de dentro para dentro. Anda extinta do extermínio do lado de fora que faz da expressão artística  comércio silencioso...

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011


Predestinado (0,80 X 1,00 m)

A pintura morde minha pele


Desamarra meus medos mórbidos


Acerta na mosca elétrica


Ligada na minha força


Jogando no bicho enjaulado


Dentro do meu chapéu.


Chapéu que o vento leva,


Da cabeça avoada


Do meu corpo de vento


Levantado pelo tempo


Balançando em seus braços


As cinzas dos meus poros


Para a borracha do oásis


Escondida na areia.


Meus dedos murmuram


Invadem as nádegas das telas


Devoram sua brancura


Mergulham nas tintas


Criam vidas sobre elas


Na ânsia da eternidade


Gerada pelo meu vão pagão.


Eu sou o nada mudo


De naufrágio cigano.


Mudo. Mudo meu grito


Mudo meus dedos


No deslizar de uma nova obra


De vida estéril sobre os riscos


Estáticos  entre o movimento


Dançado ao som dos ruídos do fim


Entre as carícias famintas


Acasaladas na mão do tempo


Que apertam o calor de minhas brasas


Esculpindo minhas cartas


Sem rótulo e destino


Em mel, pimenta e cinzas


Jantadas pelo mar.




Alcinéia Marcucci

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011


O Dedo Indicador

Beijo Chéri

O céu  cobria-se de panos quentes
Que se locomoviam na minha boca
Intocável, desprovida e louca
Toda despida na noite noviça
Sem pílulas para matar o vício
Sem anestesias para tirar o gosto
Da bala de pimenta que desmanchou-se
Como um tiro manchando minha pele
Do bendito sabor do Beijo Chéri.

O céu da boca era tão fundo
Ao som de sua saliva grudava-se
Uns genes trocados, colados
Matando não sei que fome
Desvirginando sensações inversas
Na boca perversa da noite
Entre as armadilhas dos braços
Que jogavam sem dó o laço
Da maldita saliva do Beijo Chéri.

Beijo este que amortecia a pele
Bebia a última gota da fonte
Pousava como uma praga
Platônica e rastejante 
Tomando a seiva do útero 
Na deslizante taça de cristal
Que carregava nos lábios finos
Assombrações do Beijo Chéri.

Os sustos guardo nos apuros
Bem escondidos  entre os seios
Sem abrir o bico para o grito
Dos gemidos que espremo
Nas coxas roliças dos meus dias
Cobrando rezas e pecados
Na dor do ferro a brasa
Queimando  as lembranças
Marcadas  nos lábios
Do gosto esquisito do Beijo Chéri.

          Alcinéia Marcucci 




segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


                                                                            Perigos(0,70x1,00m)



Mama Mia


Mama Mia late na minha ladeira

Tece teias no meu labirinto

De perdições labiais perdidas entre os cristais,

Invasoras das folhas de vidro que me enamoram

Nas ladainhas que cortam minha pele de algodão

Como um sopro de lama queimada pela laje

Que lança meus satélites na sonda destes espaços

Engolidos pelos dedos lambidos do tempo.

Mama Mia mia nos meus telhados

Arranha as foices da minha lâmpada

Desmancha os laços das minhas mãos

Bebe o leite das minhas lembranças

Embebidos no vinho tinto das uvas

Circulares mastigadas pelas lanternas

Que beliscam os meus músculos

E fermentam a pele dos meus lençóis.

Mama Mia ronca nos meus sonhos

Ri dos inícios sem fim que me defloram

Esconde meus medos, empurra meus segredos

Lavoura meu corpo para o amor,

Meus olhos nascentes do leste para a dor

De um sol vermelho perfumado pelas rosas

Por entre os reflexos dos meus planos

Que velejam sobre o sopro das asas dos meus cílios.

Mama Mia Pia sem pagar  licença das minhas taxas

Uma nova lenda sobre os meus pés sem chão.

Há um lobo-do-mar velando meus sonhos!

Há um dedo de moça apimentado minhas sílabas

Entre o mar salgado que vaza dos meus poros

Sem bússola que atravesse o centro da minha gravidade

Sem agulha que penetre nas minhas cavidades

De borboletas voando sobre nuvens grávidas demais

Para deixarem pousar velhas mariposas sobre a terra.


                                         Alcinéia Marcucci

Mama Mia é o mistério das emoções da Arte que me degusta, me bebe, me come entre um gole de vinho e gotas de tinta na chuva, e, ainda  não me bastasse, quando menos espero ela escapa  por entre a grade dos meus dentes e toda enxerida vai bater perna por entre as vielas medievais da "Toca do Zorro" ...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


                                                                    Margarida



Constrangida Margarida andava de passos largos na avenida Consolação que nada consolava suas consoantes absorvidas  na tortura das descrições. Havia ao menos uma leveza estampada balançando entre seus quadris num algodão cru desmanchado até seus joelhos nunca prostados diante de alguma reza.

Carente da conjuntura, Margarida entrava na feira sacudindo o pandeiro debochado e seus seios murchos , despetalados de um bronzeado laranja que desencravou quatro filhos de cima do muro desabado em sua cabeça de mulher miolo mole despencada do salto vermelho para catar as pulgas fincadas na sola dos caçadores de seus pés.

Margarida era de astúcia atrevida, tinha dentes afiados, sempre bem amolados para a defesa, porém seus olhos de mel cuspiam fogo, lançavam faíscas sobre aqueles que ousassem zombar da sua sinceridade liberta de farsas e desculpas. Equilibrada em seu salto de plástico barato carregava o peso da sua carne mal amada e perfumada pelo óleo do pecado que alguns indigentes passaram  no seu corpo de curvas perigosas para brincadeiras sem endereço.

Com seus galhos tortos Margarida retornava da feira com uma sacola de limões na mão direita e uma sacola pesada e misteriosa na esquerda arrastando olhares e fofoca da vila desocupada. Todos alargavam sua história entre um gole de pinga do boteco ou uma dor de cotovelo das velhas gastadoras de dentaduras na janela.Afinal, Margarida  era piada do olhar falecido que abria uma  cova de mitos sobre aquela mulher de pandeiro debochado que andava trabalhando com os ponteiros correndo contra o relógio do tempo sempre querendo passar a perna no seu destino. Ela não tinha ouvido para a língua do povo que tentava arranhá-la. Seus ouvidos pertenciam ao samba, seu corpo balançava no remelexo do tambor sobre seus ombros largos que abriam a avenida para seu caule seco.

Margarida era a flor do incômodo. Era a fantasia barata dos homens e o fantasma caro das mulheres. Um fantoche jogado no chão da cidade parece morto, mas quando a inocência lhe empresta a mão, é parida a vida! Assim era ela, parida pelas mãos de alguma magia que balançava seus farrapos perfumando os ares.

Por qual motivo por na cruz a flor do incômodo? Ela ter nascido sem sorte não é motivo! Ela trabalhar de sol a sol , amada por estátuas de pedra e esculturas de gelo não cria motivos! Ela crescer na fossa e sambar como uma rainha não costura motivos para ascenderem o fósforo na sua fogueira e jogarem água nas faíscas de mel de seus olhos.E nesta fornalha a língua do povo ia queimando, os olhos desmanchando no formigamento entre as primaveras sem flores de Margarida.

Já era noite quando ela chegara em sua casa. Seu teto não cobria promessas, e seu chão era liberto da sombra dos homens carnívoros. Todos já estavam criados e amados, somente a solidão lhe abraçava aquela noite. Margarida curtiu seu corpo nos limões da caipirinha tirando os farrapos do corpo laranja. Embebida entre a realidade e o sonho fechou a janela de seu quarto, tirou a essência do corpo do seu homem da sacola pesada,abriu os lençóis brancos que cobriam seu mais puro amante que a esperava intacto o dia todo sem possibilidade alguma de distanciar-se de suas mãos ou apunhalá-la pelas costas.

Ela sentou-se, abriu suas pernas e juntou-se a ele com seus dedos salpicados pelas águas que alisavam seu corpo úmido, ele ficava imóvel enquanto ela acarinhava seu rosto, desenhava seus dentes e quase beijava seus lábios. Ela remodelava suas curvas, redesenhava seus mamilos, fazia cócegas nos seus pés, abraçava suas costas, e ele, resistia paralisado, enfeitiçado aos encantos dela que ia desvendando  seu corpo, destilando as partes de seu sexo entre um punhado ou outro de argila num desejo secreto e ereto.

A coruja cantava já era tarde demais,então Margarida cobria-o novamente com os lençóis, lavava seu corpo murcho do barro amolecido e ia dormir sem saber ao certo se modelava apenas mais uma escultura ou desejos entre a terra que andava  impregnada por debaixo de suas unhas com o cheiro do pecado misturado aos seus dons.

Por debaixo dos lençóis o jovem ser esculpido sentia ânsia por não pode se mover ao encontro das mãos modeladoras que lhe acarinhavam, o barro dos seus músculos escorria  embriagado  pelo pandeiro debochado que carrega no caule toda beleza gasta do mundo.Mas, como uma escultura coberta e imóvel nada lhe restava além de molhar de lágrimas cor de terra os lençóis brancos de Margarida que dormia coberta de segredos.

                                                              Alcinéia Marcucci