segunda-feira, 4 de maio de 2020





A INSEGURANÇA
Águas vem e vão
O vento passa
O tempo apressado
Tudo leva!
Num efeito dominó
Tudo vira pó!
A dor,
A ambição de domínio,
O ego dos nobres,
A migalha dos pobres.
Só não leve tão afoito
O sorriso do menino
A esperança de dias melhores
Embalada no balanço
De um parque qualquer!
Não leve a semente
Que pairou de repente
Num ventre de mulher!
Os idosos inocentes
Que andam lentamente
Descalços de pressa!
Que no labirinto da vida
O amor encontre a paz
Derrubando muros e fronteiras
E as falsas promessas!
Que os sinônimos do bem
Se espalhem pelos continentes
Na mesma sintonia
Das crianças que não mais acreditam
Em "felizes para sempre"
Mas em dias melhores e diferentes
Sem tanta fome,pandemia e guerra
Para o futuro que as espera
Diante da agitação violenta
Da atmosfera!
Que no futuro o vírus que mais se propague seja o amor!

Alcinéia Marcucci

sábado, 20 de outubro de 2018




Enrolo meus cabelos
Num entardecer entediado,
Entrego meus cotovelos à mesa
E num copo de vinho
Aquecido por minha ânsia de vida
Mergulha meus olhos embriagados
Com sede tamanha para minhas entranhas
Trancafiadas num envelope de mistérios
Diante das incertezas da sociedade.
Meus olhos sentem o abandono na noite fria,
Meus olhos bebem as lágrimas da música vazia.
Engole suas notas de partituras tortas
Sem dó, sem sol
Para amenizar os meus dias!
Numa clave de sol eu até deslizaria
Meus anseios e agonias
Compostos em linhas tortas
Da melodia decomposta
Pelas minha forma forasteira
De ser, crer e viver
Perante as canções imutáveis que eu ouvia!
Exalo canções para os lobos, para os loucos
Sedentos de nostalgia!
Músicas quentes para a noite fria
Como foguete silencioso saindo do ventre
Para brindar um banquete de ironias!

Alcinéia Marcucci



quarta-feira, 18 de julho de 2018


Esboço com guache e água 

"As asas do inconsciente"

Olho para dentro de mim!
Já cansei de olhar para frente 
E para todos os lados 
Desse mundo camuflado 
Em disfarces de ironia!
Olho para dentro de mim
Pois sei que meu inconsciente 
Não mente ,apenas sente
Aquilo que só a mim pertence
Entre as minhas fantasias.
Olho dentro de mim
Pois aqui os pensamentos voam
E às vezes até ousam sair 
Do meu crânio engaiolado 
Para ganharem formas entre as tintas 
Que para mim dispensam máscaras!
Olho sempre dentro de mim
Quando quero ver quem sou
E quem eu amo!
A Arte ganha asas e voa...
Ela gera aquilo que sente
No presente interior de cada gente
De sorriso inocente
Para os riscos e rabiscos do futuro
Escuro e sem endereço.
Olho somente dentro de mim
Pois aqui eu sei que habita a verdade
Que distrincho com os dentes
Da minha alma lavada
Entre a cara descarada do tempo.
E assim ela sustenta minha mente andarilha
A perambular nas esquinas
Povoadas de devaneios ciganos
Das profundezas da minha intuição.
Nada das ilusões da terra
Cobertas de dores e guerra...
Quero somente as asas do meu inconsciente 
Rumo ao céu!

Alcinéia Marcucci

domingo, 15 de julho de 2018


Esboço com guache e lápis "Campo de Rosas entre um girassol "

Não me venha com rosas
Quando minhas pernas estiverem ocas
E meu rosto cansado para sentir o seu perfume.
Não me venha com rosas
Quando meu corpo estiver frio
E minhas mãos geladas demais
Para domar minhas invertudes.
Nessa manhã de sol,
Quero somente aquilo que me aqueça!
Que meu pensamento nunca se aborreça,
Seja ele sempre um girassol
Predestinado a seguir a direção da luz!
Quero rosas como peixes
Desovando meu ventre num grande cardume!
Quero rosas somente agora,
Pois o futuro me apavora,
Ele é ausente de vida,cheiros,amor e ciúmes.
Se dentre um esteio de espinhos nasce uma flor,
De tanto sofrimento desaborta um amor
Incolor,multiflor na multidão sem perdão
Como rosas de nascimento dolorido
Saindo do botão!
De repente são puxadas por alguma mão
Mudando seu destino e direção.
Predestinadas à algum passatempo
Alegria ou sofrimento de momentos em vão.
Durante a noite no relento
Quero rosas por um momento em meu pensamento
Enfeitando meus cabelos ao vento.
Rosas não são para a dor!
Rosas são para o amor!
Por isso não me venha com rosas
Quando meu corpo murchar,
Quando minha alma partir
E meu coração não estiver pulsando
Nem ao menos por ti!
Venha minha alma despir
Num campo de rosas
Onde os espinhos já não ferem mais
Minha carne anestesiada.
As ilusões do meu corpo não possuem fome
Já a força da minha alma só sente o nome
Daquilo que não se come
Não se veste,não se compra
E dispensa sobrenome.
Talvez apenas uma rosa para brindar o amor!
Talvez apenas uma rosa na noite de Natal!
Talvez apenas uma rosa numa data especial!
Afinal,qual é o mal de simbolizar o bem com aquilo que não é eterno ...
Mas pode durar a eternidade de uma vida?

Alcinéia Marcucci

Esboço "A Vida entre espelhos e flechas"

Sinto um peso entre duas medidas
Apertando minhas tripas
Rompendo as divisas
Da banalidade
Da normalidade
Que o mundo assanha.
Quero o indivisível
Quero a mutação do instante
Disfarçado de elefante
Nas esferas do meu inconsciente.
Não quero presentes
Nem luxos e etiquetas.
Quero minha ânsia fora da gaveta
Me ver apenas dentro dos olhos
De quem eu amo!
Dispenso a normalidade
Com suas pedras,flechas e opiniões.
Quero apenas a arte que me parte
Entre alguns corações
Quero o néctar das minhas entranhas
De uma força tamanha
Que preserva minha alma viva
Entre a fúria dos meros mortais canibais
Que jamais alcançarão
A intensidade da fé que se esconde
Nas entrelinhas do meu nome
Codinome espelhado: Romã...ãmoR.
Alcinéia Marcucci

quinta-feira, 14 de junho de 2018


Tenho olhos que devoram
A brisa que queima
O brilho dos meus poros.
Às vezes me apavoro
Às vezes choro
Por não poder me conter!
Sinto que vou derreter!
Sinto que nada posso ter!
Apenas ser...então que seja...
Seja feita a vontade divina
A vontade dividida
Que parte meu coração nesse instante.
Minha consciência de elefante
Caminha lenta como as tartarugas
Numa fuga dentro de mim
E simplesmente assim...
Contenho os meus monstros
Neste meu calabouço
De carnes e ossos.
Às vezes penso em soltar as feras...
Às vezes quem me dera
Abrir as asas e voar
Para algum lugar
Onde os loucos podem ser livres
Sem classes,religião e times.
Onde os loucos possam viver
Sem se preocupar com os lados
Sem serem atropelados
Pela exacerbação.
Mergulhar na alucinação seria um devaneio?
Algo que me parte ao meio?
Ou apenas um passeio...
Sem receio da minha mente desvairada!
É tudo ou nada!
E pelas estradas vazias
Sem cores e poesia
Só me resta
A maresia
Nua e fria
Dos meus olhos.

Alcinéia Marcucci

quinta-feira, 28 de setembro de 2017


A Dita

(Conversa entre uma Senhora e uma Menina.)

S- Cuidado! Às vezes ainda escuto a voz da Dita
A dita cuja...A ditadura
Dura como pedra vindo com tudo em direção da gente!
Fale baixo!Abaixe!Se esconda!
Esconda seus segredos, cubra o pensamento!
A Dita está chegando, cada vez mais dura,  triturando o som do vento!

M- Que Dita!Quem foi a dita cuja da Dita?
Nasci livre como um pássaro
Saí do ventre quente de minha mãe
E abri os meus braços
Num grito de liberdade
De quem nasce para na vida renascer
Transformando o próprio destino
Ainda menino num velho  sábio
Coberto de ideias!

S-Transformando o próprio destino
Em nascer, crescer,trabalhar, comer, dormir,
Ou dormir, comer, trabalhar,crescer ,nascer?
De que importa o início se já sabemos o final?
Ironicamente o fim é fato imutável!
Os filhos da Dita viviam com anseios e sonhos enclausurados, presos
Dentro das gaiolas de carne e ossos!
Já os filhos da Democracia!
Tem toda a liberdade para fazerem os pássaros voarem
Mas  são raros os que voam
Por que falta força, coragem para seguir em frente
Ser diferente em meio a alienação
Ter consciência que há tudo por descobrir!
Ter consciência de que não se sabe coisa nenhuma!

M-Será que a idade vai levar os meus sonhos?
Será que a necessidade de sobreviver
Vai engolir meu desejo de viver?
Será que tudo que faço
Um dia me dirá que não fiz coisa alguma!
De que vale a vida
Se tudo descobrimos mas não descobrimos nós mesmos?

S-O silêncio é macio, o remediar o passado é cômodo demais
Para desvendar o futuro e seguir novos caminhos!
Um dia profetizou Belchior  a canção dos pássaros
Que ainda há de saírem dos ninhos!
Eles voarão até cansarem  as asas
Entoando em coro a velha canção
Que a sua geração já conhece bem!

M-Ainda somos os mesmos e vivemos!
Como os nossos pais?
Por que o que  parou no lugar não sai,
E o que se movimento ainda olha para trás
Procurando alguma  direção para seguir em frente!

Cuidado!!!

Alcinéia Marcucci

segunda-feira, 17 de julho de 2017

De encontro com tudo que de mim não sai...

Vai! Vai de encontro com o seu pai
Antes que o adeus seje tarde demais
Antes que a lua desapareça
E o sol enlouqueça
Vire a cabeça sem as noites de luar!
Vá!Esqueça tudo que se vai
Sinta aquilo que não sai
Do seu peito sem endereço.
Vá! Vai antes que tudo se vá
Vá pra algum lugar
Sem enfeites e adereços.
Vá! Pois o tempo não perdoa!
Ri e de nós caçoa...
Achamos que tudo podemos segurar!
Quando o vento... escapa pelos dedos
Debochando dos nossos segredos
Desmanchando nossos corpos
A cada respirar.
Vá! Mergulhe dentro de ti
Sem pressa de regressar
E se amor de fato existir ali
Vale a pena  pra vida voltar
E se voltar talvez eu te dê um laço
Em forma de abraço
Já que não sei o quê com o futuro faço
Nem mesmo os meus passos
Posso agora controlar.

Desejo somente um sopro de vida
Pra curar as minhas feridas.
E na falta de saída
Na carência de alguma bebida
Pra afogar a minha voz sentida
Restam  a calmaria da mãe querida
E o olhar firme do meu pai.
Vai...vai para dentro de mim
Como água cristalina
Tudo aquilo que de mim não sai!
Vai!

Alcinéia Marcucci






domingo, 25 de dezembro de 2016



Sentir o corpo e alma
Leves no mesmo lugar.
Até quando vou suspirar?
Até quando vou aguentar?
Meu corpo está aqui!
Mas minha alma  eloquente
Quer sair pra qualquer lugar.

Os ossos tortos são pouco
Os dedos inquietos são loucos
Para traçar linhas na  inquietude
Das nuvens camufladas
Pelo tempo
Mutável como o vento
Que sopra vida
Para minhas mãos.

Às vezes ousa fazer uma canção
Me pedindo perdão
Por fazer do meu corpo
Algo tão inválido
Tão morno
Tão pouco
Para minha alma transpirando em brasa
Dentro da minha gaiola de ossos ocos.
Talvez eu seja assim,
Só alma num corpo que cuida de mim,
Um sonho ausente no presente
Areia na ampulheta,
Casca na gaveta
Serei pó
Sem dó
Sereia sem a
Serei
Sem nada
e
nada
mais.


Alcinéia Marcucci

Tirei os dedos da lida...e fiz uma pintura para Frida.

Entre as lágrimas que escorrem
Na minha face já sentida
E o coração que pulsa o sangue
Nas minhas veias já partidas
Fico às vezes a pensar
Se não somos um pouco Frida.
Frida!
Entre goles de mentiras
Quantas vidas já sofridas?
Um único sonho que resta
Dentre a tirania que não presta
Dilacera tantas frestas
Ferindo tantas vidas!
Frida
Sei que a vida não é doce
E só amarga fosse?
Mesmo assim... ainda vale ser bebida
Mesmo que num gole só
Já que tudo vira pó... A noite, as flores, os amores...
Essa arte que nos parte
Como vale ser sentida! Ser...
Ser sem poder ter
Por que ter é a ruína!
Quero a vida nua e crua
Queimando nas minhas entranhas
Tão estranhas, tão inquietas para o dissabor.
Da dor também nasce flor/ Uma flor como nome Frida!


Alcineia Marcucci

quinta-feira, 21 de março de 2013



Filho,
Devagarinho entrou no meu ventre
Foi crescendo tão de repente
Criando um laço inalcançado  pelas mãos
Tão apertado aqui dentro do coração
Que eu sou você e você é eu.
Você é minha respiração
As cores com que nunca pintei
As formas com que nunca antes sonhei
Mas hoje se movem dentro de mim
Como que querendo dizer: "Estou aqui, dentro de ti
E mesmo do seu lado, no seu peito permanecerei."
Filho,
Meus sentimentos crescem contigo
Criam raízes nas minhas veias
Expandem meu espaço interior
Pois o meu coração de mãe aumentou
Para o  brilho dos seus olhos
Para o  calor do teu corpo
Que já pertencem a minha vida
E aquecem os meus dias
Para a cada amanhecer
Eu renascer mais forte
Para o amor superior
Mágico e intraduzível
De mãe e filho.

A primeira troca de olhares 
Não têm preço
Ouvir seu choro
Sentir seu cheiro
Ter-te em mãos
É uma união com Deus
Um momento único
Entre o sonho e a realidade
Surgiu a razão do meu viver
Surgiu você!

Alcinéia Marcucci







domingo, 1 de julho de 2012






Tempo!
Veneno lento que transporta 
Toda massa à pó.
Tempo!
Chuva de vento  que transborda 
Na beira dos olhos 
Uma saudade sem dó.
Tempo amargo e sedento!
Congela um momento
Algum acalento
Nos meus dias derretidos
Na tua saliva que lambe minha face!
Congela alguma verdade
Um beijo sincero
Nestes meus dias fingidos
Sem beijos e disfarces!
Tempo!
Veneno lento
Que distancia  meus dedos,
Vai cortando meus anos
E aumentando meus segredos.
Tempo que levou os meus brinquedos!
Leve meu corpo fresco.
Beba-o como um refresco,
Mas não devore  a fantasia 
Da maresia dos meus olhos.
Tempo!
No meu rosto tenho suas linhas
Me fazendo companhia
Costurando-me contra a parede,
Me deixando com sede
Das tantas polpas da vida já provadas.
Tempo!
Se eu pudesse te enganaria!
E com as linhas do meu rosto
Bordaria os bons ventos
Que escaparam dos meus dedos
Numa colcha de todas as cores
Para aquecer meu lado criança
Nas noites frias do inverno.
Tempo!
Que desmancha os castelos
Bate como um martelo
Bem no centro do meu peito
Brincando com minhas veias
Igual a  um gato ligeiro
Com o meu novelo de linha
Arraigado nas unhas
Cutucando a ferida
Da saudade doída da minha alma partida
Perdida sem compasso no seu passo
Extremamente veloz 
Evaporando os momentos
De todos nós.
Tempo!
Veneno lento,
Cruel e  mentiroso,
Chuva de vento que transborda
Na beira dos olhos 
Uma saudade tão só.
E na negra solidão,
Entre a triste brancura dos lençóis
Me aqueço nos seus nós
Apertando as  lembranças
Que crescem  no âmago sem dó.
Sem dó!



Alcinéia Marcucci



quarta-feira, 20 de junho de 2012



Mãe Terra (0,80 X 1,00 m)

Poesia do poeta  gaúcho Luiz Sérgio Quintian Costa

Sou do bem! Só o nosso amor incondicional unificado salvará
a alma de todos os seres vivos e a grande alma Terra da qual fazemos parte. - Quintian



DEUS É MULHER

(quintian)

Mulher! Sedução é o teu nome,
para te adorar me fiz homem.
Não parei de aprender
um minuto sequer,
esta ciência, esta arte,
a alquimia de amar.
É na combinação de energias,
desta química sem par,
que eu me fundo, me confundo,
que eu vou até o fundo,
só para encontrar
a tua prenda de ternuras.
A generosidade é tanta,
Que me comovo, é santa!
e de demo à musa, um passo,
de amiga à dançarina, o abraço.
Vais permitindo todos os meus vôos,
vou tentando todos os meus cantos,
e consagra-se a paixão, encantos,
fusão de cérebro e coração,
deliciosa confusão de liberdade e instinto.
Sou quase uma sombra que brilha,
Nada é impossível, tudo é provável,
A vida é um gosto, é ávida de prazeres.
O segredo revela-se, é único, é raro,
ela pode, ela busca, ela quer,
ela faz mais e melhor,
porque Deus é Mulher!

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Na viagem ao desconhecido mergulhei dentro de mim e penetrando na escuridão de minhas entranhas senti a Arte numa luz de queimar os olhos e chocar as  minhas "crias" alimentando-as  para que possam quebrar  os ovos retraídos por este  sossego ou espremidos  pela  velocidade do metrô. 





Olhos na Solidão ( 0,70 X 1,00 m)



Anestesiada!

Com as costas viradas para o mundo fugaz.

Anestesiada! Sem sentir o chão e seus prazeres carnais.

Anestesiada com um dragão rompendo-me num apetite voraz

Garras afiadas picotando meu corpo rápido demais.

Corpo rasgado no chão com a mala na mão.

Pra que lado será que eu vou? Perguntei aos meus disfarces.

Em minha gaiola de carne e ossos mastiguei pedaços de interrogações

Já minha alma brejeira? Nossa! Como deslanchou sem medo nos quadros, lambendo as tintas

Lavando meus olhos, extasiando meus pelos e regando minhas pintas.

Os violinos tocavam minhas notas decompostas " Ao Som dos Devaneios"

Senti ali uma alma sem rodeios desgarrar-se do corpo do pianista. Que alívio! Não estou só!

Há outros corpos flagelados por almas inquietantes! Vi a sua alma levitar por alguns instantes!

Perdida no meu mundo, com os olhos fundos na medula dos mistérios.

Embaralhada nos contrastes descobertos e incertos na avenida sonâmbula de São Paulo

Ouvi o canto da minha tribo batucando com os meus ossos e fazendo cócegas nas minhas vísceras.

Não dormi. Chorei e ri rasgando a madrugada com " As mulheres que correm com os lobos"

Entre ruídos sorrateiros externos e uivados ferozes internos a noite saltou fundo no amanhecer.

Senti o cheiro das palavras e quis entrar em alguns quadros.

Vi olhos me chamando para contar os seus segredos.

Maldito artista que parte no infinito rejuvenescendo incógnitas!

Senti nas pinturas o calor dos dedos na coloração avermelhada

A luz do sol capturada no instante e ali eu quis me aquecer.

Senti as lágrimas da obra" Saudade" bem dentro dos meus olhos

E o movimento das pessoas nas telas paralisadas.

Lá fora leito de algodão nas ruas e calçadas.

Vi árvores com as mãos arraigadas no colo da terra

Enquanto outros com as mãos nem fazem amor, apenas guerra.

Ouvi almas me chamando para fora de minha sela.

Uma mescla de gente ascendendo minhas velas.

Texturas agridoces dissolvidas nas retinas

Pimenta queimando a ponta de minha língua

Derretendo na saliva as cores da emoção: " Fascinação"

Foi espanto dos meus olhos ou dos olhos da lua que prateava a avenida luminosa na contra- mão???

Perdida me reencontrei certos momentos no deserto da multidão

Com meu olhar ladrão inocente querendo apenas capturas instantes

E sensações sem nome, daquelas que correm além dos lobos

Algo que sei que deve estar muito além dos limites desta vida...


Alcinéia Marcucci




domingo, 1 de abril de 2012




O Toque na Dor (0,30 x0,30 cm )




Ah! Como eu amo o anormal!
Eu amo o feio, o olhar esquisito!
Aquele ser que ninguém vê.
Amo a simplicidade.
A terra vermelha colorindo a brancura dos més pés
E perfumando minhas frescuras!
Amo os detalhes
Escondidos nuns gestos
Secretos e discretos
Isentos da pretensão do mundo
E dos sorrisos falsos e vagabundos
Espalhados por aí.
Amo o olho no olho
Toque somente pelo toque
Beijo somente pelo beijo
Da língua que se movimenta no céu oposto
Da boca liberta de mentiras.
A verdade está no silêncio.
Na palavra não pronunciada
Naquela que foi guardada
Pois de tão verdadeira
Poderia, se lançada, virar o mundo pelo avesso.
Ah! Como eu amo o olhar e o silêncio!
Com eles não existe razão
Apenas apreciação
Da beleza secreta do amor.
Sim, eu sei que com ele um pouco de dor
Mas é uma dor diferente
É uma dor que cura
A doce criatura que assola o peito
Dos corpos imperfeitos.
Amo a ousadia! Talvez por isto a arte seja minha única religião.
Amo o sentimento como um todo! A expressão dos excluídos
Que trocam o pão pelo pão
Do trigo balançando nas mãos
Germinando uma sensação 
Maior que a liberdade
Nunca antes pronunciada
Pela língua dos homens.
Os mistérios me atraem,
As palavras que não estão nos dicionários
Nem no vocabulário das línguas nobres.
Amo e sou como os pobres
De alma cigana
Orvalho misturado com suor
Lágrima mistura com saliva
Desta terra lambida.
Sou uma gota no mundo
Que precisa de água pura da fonte
Sentidos e sensações que me  revistam de vida
E nada mais....

Alcinéia Marcucci



                                Toque pelo Toque (0,30 x0,30 cm)                                        

O Silêncio das Tintas












terça-feira, 14 de fevereiro de 2012



Uma andorinha androide
Anda em trapos sobre as anedotas
Algumas vacas tortas
Recriam sua próprias pintas
Algumas borboletas mortas
Tecem asas diurnas
Enquanto que algumas portas
Rangem os dentes para novos mundos.

Não estamos sós
Nesta Terra corcunda!
Há uma corda vibrando entre os dentes
No intervalo corado  dos segundos.
Há um som da água gemendo na fonte.
Não estamos surdos!

Não estamos sós
Neste calabouço sem fundo!
Há um calafrio gritando no estômago
Há uma ponte fazendo cócegas 
No cadeado dos mistérios
Destes sonhos tão profundos.
Não estamos mudos!

Um órgão oco pulsa
Notas sangradas sobre o peito
Algumas certezas sorriem
Dúvidas para o imperfeito. 
Vejo a hipocrisia  com sede da verdade
Sinto a fantasia nas costas da realidade.

Há um vento sem guia
Velando o vão dos seus dedos
Há um camaleão sem formas
Mudando a cor dos meus medos.
Ouço um quadril desarticulado
Encaixando-se num mar de gente
Sinto histórias tortas
Crescendo certas no ventre quente.



Não estamos sós
Nesta Terra corcunda!
Há uma corda vibrando entre os dentes
No intervalo corado  dos segundos.
Há um som da água gemendo na fonte.
Não estamos surdos!

Não estamos sós
Neste calabouço sem fundo!
Há um calafrio gritando no estômago
Há uma ponte fazendo cócegas 
No cadeado dos mistérios
Destes sonhos tão profundos.
Não estamos mudos!

Alcinéia Marcucci





domingo, 22 de janeiro de 2012




Mãe Terra em Mãos D'água 
(30 X 40 cm - Látex sobre Canson)

Conversa com Deus




Senhor!

Dai-me forças para voar
Dentro da minha imaginação.
Perdoai os meus passos fora da realidade
Minhas andanças na contramão  da humanidade
Meus extintos loucos que amamentam
As crias que ninguém vê
As vozes deleitadas no meu peito
Sangrando em vermelho curumim
 Toda a emoção lagrimada                                                                                                                       Na anemia de minhas telas.
Senhor!
Intercedei por mim!
Acalme esta minha alma deslocada
Que insiste em desancorar do meu corpo.
Senhor! Desperte o meu mar morto
Adormeça o dilúvio dos meus olhos
Dai-me o pão da liberdade
O  seu vinho tinto do amor
Suas mãos dentro do meu peito
Para curar minha dor.
O prato mais farto já não me alimenta
A  beleza externa já não me sustenta
Estou partida em fetas ,Senhor!
Senhor!
Dai-me  água da fonte
As cores do horizonte
Desgarre minhas raízes dos montes
Como uma árvore livre
Quero bater minhas folhas rosadas
Na brancura das nuvens Senhor!
Senhor!
Cure minha angústia!
Perdoe as dores que causo ao meu corpo sadio
Com esta minha alma inquietante.
Ela parece estar quebrando meus ossos
 Devorando meu sossego,                                                                                                                    Fervilhando meu sangue Senhor!  
Minhas lágrimas escorrem tão quentes        
Parece que até vou explodir
Na fome deste ideal!
Escutai as preces da minha alma  senhor!
Me corpo é mudo, sem voz.
É ela que grita
Entre meus poros.
Não deixai eu abortar os sonhos
No cativeiro dos ossos!
Há um feto deflorando meu peito
Oh me Deus! Sei que pode vê-lo!
Curai  a dor de minhas entranhas Senhor!!!

Amém!

Alcinéia Marcucci